Sexta-feira, Junho 05, 2009
Conto-te
O que conto pra quase ninguém
Conto-te também o que conta
E o que conto pra quase todo mundo também.
Só não te conto quando você não conta
O que tens pra contar sobre você, meu bem.
Entre tantos contos contados
Conto um somente pra você que tem
Meu coração, meu sorriso, minha mente
Conto-te que tudo isto é seu, de mais ninguém.
Quarta-feira, Maio 27, 2009
A importância das coisas
Só por um pouquinho
Respirei aliviada
Andei em direção à porta sem olhar para trás
Sem me importar com tudo e o resto.
Sábado, Abril 18, 2009
18 de Abril
E estou ficando velha
Me sinto muito velha...
Tenho 32 anos e 12 meses
Quero nunca passar dos 32
Nunca!
Quinta-feira, Abril 16, 2009
Impression
Quinta-feira, Abril 09, 2009
Palavras guardadas
Terça-feira, Abril 07, 2009
Hoje uma necessidade
Uma mistura de bem querer, saudade e vontade
Vontade de sentir tua presença e o que ela me causa
Vontade de não mais me lembrar do passado, dos meus erros, de tudo...
Noite solitária
E esta solidão, quase um mal necessário
Não me exime de nada
Nem de mim mesma.
Domingo, Março 29, 2009
A vida sem cortes
Janelas abertas
Ventinho roçando a pele
Almoço gostoso
Tarde agradável, sem compromisso...
E a vida não é tão ruim como noutro domingo
Pessoas vêm...
Pessoas vão...
E assim termina mais um ciclo.
Domingo, Março 15, 2009
Corte Profundo
Sangrei em tarde de domingo
Como outrora fiz por tantas e tantas razões
Não há como retificar
Mais uma vez...
Déjà vu
No meio do caminho minha mão esqueceu o gesto
Esqueci de mim
Esqueci de tudo
Perdi-me no vento
Aquele vento de sempre
Levou meus pensamentos de novo
Levou tudo que estava em mim
Levou o pássaro que batia suas asas
Sob a sombra fresca da minha árvore
Sob o céu que em outras vezes me protegeu de toda a tristeza dessa vida...
Terça-feira, Fevereiro 17, 2009
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
Vou continuar...
Estou pensando no vazio que percorre minha mente
Vou parar de pensar
Vou parar de sofrer
Vou continuar...
Terça-feira, Fevereiro 03, 2009
necessidade
preciso de minhas roupas dobradas e guardadas
vou abrir as janelas
preciso sair mais para sentir a brisa tocar meu rosto
há tempos não deixo a chuva me molhar
há tempos não deixo meus cabelos se esvaírem na calma de minhas mãos
não assisti mais ao pôr do sol desde aquele dia no cais
aquele dia foi o último
e eu nunca mais vi outro como aquele
nunca mais
lembro do azul do mar
ele nos escutou todas as vezes
presenciou o tilintar da vitória
o beijo, as bocas, os braços e as pernas
sinto falta de tudo.
Terça-feira, Janeiro 27, 2009
Não há
Sem saber exatamente se é contentamento
Sem saber de nada
Gosto desse sentimento
Não há decisão vinculada
Não há máscara
Não há nada.
Sábado, Janeiro 17, 2009
Basta!
Apenas angústia dentro da verdade mais certa de não mais querer perdoar você
Não quero
Não insista
Não farei mais isto
Não, nunca mais.
Não mais lhe prestarei ajuda
Pois se no final ainda queres me presentear com a culpa
Não mais escutarei suas lamúrias
Relatos de uma fragilidade que não existe
E por quanto tempo enganas com isso?
Não há espiritualidade em você
És carnal, totalmente.
Dissimula quando pode
E reformula frases feitas
De fato
Hoje te detesto.
Segunda-feira, Janeiro 12, 2009
Sábado, Janeiro 03, 2009
Independência é a Morte
Estacionei ao lado do carro vermelho. Havia um homem sentado no banco do carona. Cabelos bem brancos. Não teve curiosidade de olhar para o lado. Só eu olhei. Mas não olhei por curiosidade. Apenas olhei.
Uma mulher veio em direção ao carro. Tinha idade para ser a filha mais jovem do homem. Poderia também ser sua neta mais velha. Eu não sei.
- Vamos. Devagar você consegue. Eu te ajudo.
A mulher tinha voz afável e completamente paciente. Ele apenas a olhou; não disse sequer uma palavra. Aqueles olhos azuis diziam muito mais que sua própria boca. A pele tão branca se assustava com o tom daquele azul. Azul diferente do céu. Diferente de todo tom de azul que já vi. E eu já vi muito azul.
- Ai!
Ele estava sentindo dor. Contudo, a jovem mulher ajudou-o nos passos. Depois da saída do carro, o segundo empecilho foi a calçadinha de acesso que, depois de mais alguns ais, fora vencida bravamente. Apenas restaria a grande rampa. Ela falou algo ao pé de seu ouvido.
- Não, eu não quero.
A voz dele era de dor. Ela o escorou ao corrimão bem no início da rampa. Ele olhou para mim. Baixou a cabeça. Fitou o chão. Vi nele o mesmo olhar de vovó quando adoeceu. Um olhar que expunha sentimento de vergonha pela dependência crassa de tudo e de todos. Engoliu seco. Fechou os olhos. Nesse instante vi movimentação no topo da rampa. Finalmente enfermeiros. Enfim enfermeiros. Enfim.
Ele não olhou mais para mim. Enquanto eu ainda esperava meu propósito, permiti-me encostar a cabeça no volante do carro. O sol estava indo embora, mas deixava para trás a dor daquele velho homem em meu peito.
Quarta-feira, Dezembro 31, 2008
O que eu sinto...
Eu sinto que você não quer sentir o sentimento puro que traz o contentamento e não entendo o porquê desse seu querer
Eu sinto você distante e ao mesmo tempo tão perto que dá até para sentir sua respiração ofegante
Eu sinto que às vezes você gostaria de sentir o que eu também sinto
Você só não sabe que o meu sentimento nem sempre é bom, pois sinto que tenho que sentir mais e mais
É... Eu sinto medo e sinto que você sente muito mais medo do que eu
Sinto que você acha estar sob proteção em relação a mim
Mas essa proteção é construída por sentimentos que não foram sentidos por completo, e te digo que são sentimentos bobos, pois assim não podemos acrescentar nada quanto ao que sentimos
Sinto que poderia ser tudo bem melhor, pelo simples prazer de sentir
Eu sinto isso tudo em relação a você.
Sexta-feira, Dezembro 26, 2008
Vai entender...
Gozado... Sou Gerente de Mudanças.
Durante uma época não podia sentir o cheiro do café
No entanto, amo café e pão com margarina... Lembra minha infância, minha avó e tanta coisa mais.
Às vezes não tenho muita curiosidade em lugares novos
Mas estou cá a conhecer Londrina e o bom é que tenho guia.
Não gosto muito do sol tão quente
Mas prefiro assim à muitos dias seguidos de chuva... Eu fico pior.
Cidade arborizada
Gente branca demais, mas à noite a cidade é escura... Será que há amargura?
Acho que não sou mais romântica, só carente.
Não sou mais tão jovem, mas as pessoas acham.
O espelho não mente... Estou ficando velha sim, mas sem cena e quase sem rugas.
Não tenho preocupação com minhas rugas, só com minha conta bancária.
E às vezes é por causa dela que tenho rugas.
Vai entender...
Quarta-feira, Dezembro 10, 2008
Do outro lado da rua
Segui pela calçada da esquerda. Meu carro do outro lado, um pouco mais abaixo. O trânsito que a rua não comporta estava parado. Fui descendo devagar, sem pressa para alcançar o carro. Uma caminhonete preta chamou minha atenção. A loira ao volante chorava ao celular. Parecia uma briga de amor. A fila andava quase nada, e eu, do outro lado da rua, acabei ultrapassando o carro dela sem precisar fazer nenhuma manobra complicada.
Alguns moços que dividiam a mesma calçada comigo no sentido contrário, também perceberam a situação. Ao verem a loira que gesticulava e tentava explicar o que parecia não haver explicação, riram. Eu apenas acompanhei de longe, sem rir, sem julgá-la. Apenas pensei se quem estava do outro lado da linha merecia realmente todo aquele desespero.
Sábado, Novembro 08, 2008
Terceto dos meus dias
Aqui também caiu uns pingos...
Ontem muitos pingos...
Mercado
Pedintes na porta
Do lado de dentro povo desalmado
Comprei desalmadamente uma caixa de crunch
Só porque junto vinha um DVD de jogos
Mas nem gosto tanto de jogos.
Fiz Moqueca Capixaba para o almoço.
Ai... Vou contar... Aff!
(Quase) Moqueca Capixaba... Coloquei leite de coco e ficou muito bom.
Tenho trabalhado 12 horas por dia
Cabeça quente
Mas a orelha fria.
Coração cercado
Apertado
E finalmente apanhado.
Segunda-feira, Outubro 06, 2008
Sábado, Setembro 27, 2008
Sábado, Setembro 20, 2008
Para você
Mas são meus olhos apertados de saudade
Por você não estar lá
Então me viro do avesso
Penso no começo
E começo a relaxar
"...and I miss you every day
Your Smile
It´s your smile
That makes me feel free
It doesn´t matter what they say
Because I love you
and I´m sure I will love you
For the rest of my days."
Domingo, Setembro 14, 2008
Meu mundo
Enquanto sentada, olhando para o mar, pensei que poderia dividi-lo. Eu no meu mundo... Criando outros mundos... Como numa divisão celular. Que louco!
Criei vários mundos, todos com uma certa medida de perfeição. É que meu mundo não era perfeito.
Quer conhecer meu mundo?
Terça-feira, Agosto 26, 2008
Será o fim?
- Eu? Eu não. De onde você tirou isso? – ele protestou.
- Deve ter saído da minha cabeça torpe. – ela riu.
- É. Só pode. – ele riu também.
- Mas você me conhece, sabe como sou... Não gosto de perder tempo. Então peguei as chaves do meu carro e caminhei disposta a sair dali.
- Eu me lembro. Foi nesse momento que avistei você. Eu te chamei, mas você nem olhou para trás.
- Eu tava muito puta. Puta comigo mesma por querer tanto você. Eu não queria olhar mesmo, queria nunca mais te ver.
- Eu sei. Quando você fica puta não tem conversa. Sei que quando você decide que não quer... Daí não quer mesmo.
- Pois é. Eu sou assim mesmo. – Constatou a jovem mulher – O que te deu naquele dia? Você praticamente se jogou dentro do meu carro!
- É que eu sabia que depois de tudo você não me quereria mais. Sei o quanto você é orgulhosa e decida. E naquele dia eu percebi que você não me perdoaria mais como das outras vezes.
- É... Não mesmo. Sem chance.
*
Naquele fim de tarde ela ligou o carro, e quando prestes a acelerar de modo a partir, ele instalou-se com ar de desespero.
- Aonde você vai?
- Vou pra casa.
- Mas agora?
- Eu já deveria ter ido. – disse ela quase sem nenhum sentimento na fala.
- Você está brava?
- Não. – dessa vez respondeu com certa medida de sarcasmo.
Ela, de saco cheio dele, completou:
- Acho melhor você ficar por aqui mesmo. Tô afim de voltar pra casa sozinha. Além disso, tua família precisa de você, teus amigos precisam de você, teu cachorro precisa de você...
- Mas hoje eu vou com você. – ele era teimoso.
- Se quer ir mesmo comigo, insisto que permaneça calado, pois hoje não quero ouvir mais nada, nem ninguém. – ela forneceu-lhe as instruções.
Ela acelerou e saiu rasgando o vento. Fez o percurso de 30 quilômetros pela BR que ligava uma cidade a outra. Aproveitou a volta como quem aproveita um passeio gostoso de domingo. Umas das mãos no volante e a outra do lado de fora da janela cortando o vento. Ele, que sempre fora tão irresponsável, tentou convencê-la a não fazer aquilo. Entretanto, ela o lembrou sobre o tal silêncio, estado em que ele deveria manter a si mesmo.
Finalmente chegaram. Ela foi logo indicando a ele o quarto de hóspedes. Dormiu sozinha, tranquila, feliz. Ele não conseguia deixar de pensar no quanto ela significava para ele, assim, de repente, de uma hora para outra.
Sábado, Agosto 02, 2008
A Bolinha
Eu brincava com ela
Pra lá e pra cá no quintal
A Bolinha era fofinha
Gostosa de apertar
Rolava pelo quintal inteiro comigo
Manhosa Bolinha
Carente
Dava-se bem comigo
Lembro-me do seu latido
Quase sofrido
Pedindo minha atenção...
(Qualquer semelhança deveria ser mera coincidência)
Quando vou aprender a lidar com a perda?
Quinta-feira, Julho 31, 2008
E do que eu preciso mesmo?
Muito trabalho
Pouco descanso
E eu aguentando o tranco
Gosto de uma boa briga
Mas há muito meus inimigos nem me intrigam
São previsíveis
Quase invisíveis
A vida ficou monótona
Como estrada sem curvas
E do que eu preciso mesmo?
Terça-feira, Julho 15, 2008
Meus meios
Fui até o meio da casa... Pensando...
E no meio de tantos pensamentos que me devoravam na madrugada
Pensei em devorar o bolo que descansava bem no meio da geladeira
Frio...
Sem sentimentos
Nem notou minha presença no meio da cozinha
Ordinário
E além de tudo engorda!!!
Minha ansiedade bem maior
Devorou o pensamento gordo que me afligia
No meio de um ataque hipócrita de consciência que tive
Saco!
Não quero mais ter consciência
Porque no meio disso tudo
Ela sempre me devora
E não tenho mais meios para lutar contra isso.
Quarta-feira, Junho 11, 2008
Chá para Seu Alberto
Certo dia, os Almeida tomavam sol em seu belo jardim. Refrescavam-se tomando suco enquanto conversavam futilidades ao passo que o rapaz trabalhava logo ali.
- Não gosto dele, Alberto.
- Deixe de implicar com o rapaz, Aurélia.
Os olhos de Aurélia mostravam a Otávio o quanto ele era detestado por ela. Era um sentimento injustificado. Ela simplesmente não havia gostado dele. E para Aurélia era assim que funcionava. Ela era uma mulher imponente, implacável, que valorizava a boa aparência. Quarenta e dois anos, contudo, parecia ter trinta. Otávio era lindo, e talvez fosse somente por isso que ele ainda permanecesse trabalhando naquela casa. Nada como gente bonita servindo, agüentar a pobreza era algo difícil, mas a falta de beleza era, sem dúvida, um pecado imperdoável dentro das concepções de Aurélia.
Alberto tossia incessantemente quando Aurélia adentrou.
- Você precisa ver seu médico. – disse ela.
- Me deixa Aurélia. Me deixa. – retrucou Alberto sem paciência.
Na verdade ela não se preocupava com ele. Mas era importante deixar Alberto pensar que ela se importava, afinal, era ele quem sustentava seus luxos.
Aurélia passou a freqüentar o jardim sem a companhia do marido. Alberto convalescia já por algum tempo, mas sem muito sucesso. Passava muito tempo dentro do quarto, sempre muito irritado por causa do mal que lhe afligia. Ela estava cansada daquilo. O péssimo humor de Alberto aumentava a cada dia e ela procurava evitá-lo. Por isso, passou a permanecer mais tempo em outras partes da casa. Mas, para seu infortúnio, Alberto, com a ajuda do enfermeiro, sempre acabava chegando até ela. Certo dia, completamente consumida pela instabilidade emocional do marido, lembrou-se que há muito não ia ao jardim. Atinou que o lugar parecia ser seguro, pois Alberto em seu estado debilitado, provavelmente não desceria até lá. Já na entrada principal, avistou Otávio que cortava a grama. Resolveu deitar-se na espreguiçadeira. Otávio, sem se distrair, notou os olhares de Aurélia. Decidiu parar um pouco, pois o sol estava muito quente. Pegou a garrafa d’água e andou em direção a uma grande árvore no meio do jardim. Deixando a mulher sem visão privilegiada, tirou a camisa e se refrescou com a água. Aurélia, que o observava de longe, achou aquilo um insulto. Como poderia um empregado ousar ficar tão à vontade em seu jardim? Levantou-se e seguiu para dentro da casa decidida a despedir o rapaz. Contudo, não estava habituada a lidar com esse tipo de coisa, já que Alberto era quem contratava e demitia funcionários quando necessário, além de cuidar de todas as outras coisas. A única coisa que Aurélia sabia mesmo fazer era gastar o dinheiro do marido: vestidos caríssimos, jóias esplendorosas, viagens pela Europa, o prazer de saborear uma Golden Bon Vivant ao molho de um Château. Coisas maravilhosas que, certamente Otávio e nenhum outro empregado daquela casa, jamais poderiam experimentar. Portanto, decidiu que aquele insolente permaneceria até que seu marido tivesse condições para chutá-lo de lá. E assim prosseguia Aurélia, vítima de si mesma. E o tempo que levou para que se sentisse completamente louca, apaixonada e dependente de Otávio, nem ela mesma soube precisar...
O rapaz também se mostrava apaixonado e correspondia aos afagos de Aurélia enquanto Alberto ficava cada vez pior. Otávio passou a dormir na mansão, nas dependências de empregados. Mas, na calada de todas as noites se deleitava com Aurélia. Ela não media esforços e ultrapassava qualquer limite para encontrar-se com o amante, mesmo que isso, muitas vezes, despertasse a desconfiança dos outros empregados. Isso significava trabalho para Otávio, que depois tinha que gastar seu latim com a criadagem apagando as pistas deixadas por Aurélia. O sorriso do rapaz lhe garantia aliadas. Não era difícil para ele convencer as empregadas da casa. Era a palavra de um deus grego contra comentários infundados de empregados invejosos. E tudo ficava bem.
Algum tempo se passou e o médico de Alberto trazia boas notícias. Era só uma questão de tempo, pois a doença havia regredido, e ele voltava a sentir sinais de vida em seu corpo. Agora tinha vontade de se alimentar, e seu humor melhorava a cada dia. Isso passou a preocupar Aurélia que, perdidamente apaixonada por Otávio, não mais poderia manter seus encontros amorosos com a progressiva melhora do marido. Foi quando Otávio resolveu prestar ajuda providencial a Aurélia.
- Há uma planta. – disse ele com voz branda e macia.
Aurélia, apagando o cigarro, voltou toda sua atenção para o belo moço. E ele prosseguiu:
- Datara Michel. Seu princípio ativo é Alcalóide daturina. – disse ele.
Aurélia ficou perplexa, em choque. Não conseguia dizer uma palavra sequer. Notando a reação dela, o esperto rapaz mudou o discurso.
- Desculpa Aurélia. É que te amo tanto... – disse o rapaz derramando uma lágrima.
Ficou encantada. Nunca ninguém havia falado de amor para ela daquela forma. De fato, era a primeira vez que alguém a declarava amor, visto que ela sempre fora mesmo insuportável. Tomada de emoção, disse ao rapaz que providenciasse o que ele tentava lhe explicar. Ela evitou saber detalhes, pois sua consciência a constrangia. Por isso, não quis se inteirar de pormenores. O que ela também nunca soube é que Otávio sempre fora um menino mau desde a tenra idade. A mãe sempre o defendera de tudo e todos. Muito embora soubesse que Otávio fosse, por trás daquele rostinho de anjo, uma criança maquiavélica. Entretanto, seu amor de mãe era incondicional e tão grande a ponto de seguir criando aquele belo monstro.
Aurélia mandou a cozinheira preparar carne ao molho de ervas, pois era um dos pratos favoritos de Alberto. Ordenou também que a mulher colhesse as ervas do quintal, pois para o bem-estar de Alberto seria melhor usar temperos naturais, nada industrializado. Chegando à horta, a cozinheira viu Otávio colhendo, entre outras coisas, ervas. O sorriso do rapaz para aquela senhora, sem dúvida, mostrava o quanto tudo que havia colhido estava à disposição dela. Com outro sorriso a mulher retribuiu a disposição de Otávio em ajudá-la. Mal sabia ela que, misturada às ervas, havia um tanto de sementes da planta mortífera, a tal que Otávio havia mencionado em conversa com Aurélia.
*
Depois do enterro de Alberto, Aurélia quis ficar sozinha. Pediu que Otávio se afastasse um pouco, limitando-se apenas às dependências dos empregados. A consciência de Aurélia cobrara um valor bem mais alto que ela havia imaginado. Mas depois de duas semanas ela sentiu saudades e voltou a ver o rapaz. Mais um ano e ele já não era mais o jardineiro. Cuidava de tudo para Aurélia. Tudo aquilo que antes era administrado por Alberto, agora era responsabilidade de Otávio.
E mais um ano se passou... Otávio tinha tudo como havia planejado: procurações dando a ele poder de decisão sobre tudo. Então, propositadamente passou a promover atividades que lembrava Aurélia a presença de Alberto. Pedia à criadagem que colocassem a mesa do café com três lugares. Recebia Aurélia à mesa com um abraço caloroso e dizia:
- Café para mim, para você e chá para Seu Alberto.
As manhãs no jardim eram as que deixavam Aurélia mais deprimida. A cada dia que passava, Otávio conseguia fazer com que ela ficasse pior. Desgostosa e cheia de culpa, ela parou de fazer as coisas de sempre: compras, festas, maltratar os empregados... Parou de comer. Parou de ser Aurélia. Definhou. Aquela mulher tão bela não foi reconhecida em seu caixão.
Aurélia não tinha herdeiros, por isso, Otávio não teve maiores problemas em colocar as mãos em todo o dinheiro. A causa da morte de Aurélia, para toda a cidade, incluindo a polícia, foi somente depressão. Sofrimento pela perda de seu amado, querido, imaculado marido: Alberto.
Quarta-feira, Junho 04, 2008
Feline
Comecei a ver o que não devia
Dor e alegria
Paradoxo de uma noite fria
Que não quer acabar.
Terça-feira, Maio 27, 2008
Na avenida
O amor me encontrou
Olhou para mim
E questionou-me quanto à seriedade que pairava em meu rosto
Eu não havia me dado conta de que era assim que eu aparentava
Tentei me justificar dizendo que havia sido dessa forma desde a minha infância
Ele me disse que não conseguia aceitar isso muito bem
Que se sentia infeliz ao meu lado
E que freqüentemente era machucado
Pela minha falta de entusiasmo
Eu olhei a minha volta
Mas nada reconheci
Nem o amor
Nem ninguém
Olhei para o céu
Pedi a Deus que olhasse por mim
E fui embora
Sem me despedir do amor
Da multidão
Nem de mais ninguém.
Sexta-feira, Maio 09, 2008
Sobre amor e despedidas
Para Camilla.
Uma vez conheci uma mulher que chorava sem chorar. Esquisito, não é?! Mas é isso mesmo. Ela sofria de algo que não sei dizer o que é, e também não estou interessada, só sei que ela chorava sem que uma lágrima sequer caísse.
Eu nunca fui de chorar. Às vezes chorava sozinha, porque era mais confortável, porque gostava de estar sozinha e chorar. Porque chorar sozinha é melhor. É. É isso.
Quando eu amei de verdade na vida, comecei a chorar bastante. A distância era um problema. Gastava todos meus tostões. Ele também. Mas pior que gastar os tostões eram as despedidas. Nunca gostei de despedidas, sempre segurava o choro. Mas quando amei de verdade... Chorei copiosamente, com gosto amargo na boca. Chorei no meio de um monte de gente. Me estranhei. Sou estranha. Naturalmente. Contudo, chorar no meio da multidão já era demais. Mas não foi somente dessa vez... Não... Na verdade, no início eu só chorava depois do primeiro quilômetro. Depois veio a fase de chorar em casa, aos beijos, sob juras infindáveis de tardes quentes. E aquele gosto amargo sempre na boca.
Hoje eu também choro. Eu choro porque sinto falta das despedidas. Eu choro porque às vezes quero ir sem me despedir. Sem dizer sequer um “tô indo!”.
Quinta-feira, Maio 08, 2008
E-E-Ego
O Ego que não descansa
Insatisfeito sempre
Trançando linhas desconhecidas, sobretudo desconfortáveis
Pra quem ousou um dia desafiá-lo.
Ego cretino
Abomino você
Até o dia que eu morrer.
Sábado, Maio 03, 2008
Perdidamente
Pensamentos incontáveis
Medo de viver constante
Amor latejante, secreto, eterno...
Passo em descompasso
Sempre...
Perdidamente.
Domingo, Abril 27, 2008
Momento amargo eternizado num instante
Você já não consegue enxergar mais a luz
Quando tua mão já no meio do caminho
Esqueceu completamente o que era pra ser feito
E tinha que ser feito...
É você e os momentos amargos de Thiago de Mello
Quando a noite cai
Sem que as horas tenham passado
Quando os sonhos mais ávidos dormiram
E você estava com insônia
Quando o dia se aproxima
E nada ainda mudou
Quando o mundo em volta
Acha-te como a causa
E tudo que você quer é uma noite de sono tranqüilo
E você começa a lembrar-se daqueles que passaram por você
Quando você sabe que o melhor seria esquecê-los
Quando você quer seu café sem açúcar
E dançar sem par
Quando o mundo acabou
E só sobrou você
Você...
Domingo, Abril 20, 2008
Amores Amigos
- Cê tá achando o quê? Se eu fosse como a Márcia seria pior!
Desta vez ele gargalhou. A forma descontraída como ela falava, relaxada, rindo de si mesma. Ele pensou em como ela facilmente se superava a cada dia.
- O gajo dela conversou comigo noutro dia. Me contou que tentou fazer um elogio bem romântico: “Como você consegue ser mais bonita a cada dia? Me diz!”. Ela, irritadíssima, perguntou por que ele gostava de brincar daquele jeito com os sentimentos dela. Obvio que ele não entendeu nada! TPM!!!
Os dois caíram na gargalhada, ainda comentando sobre o episódio enquanto comiam. De repente, foram surpreendidos pela música que tocava no computador:
“Ó meu amado
Por que brigamos?
Não posso mais viver assim sempre chorando...
A minha paz, estou perdendo
A nossa vida deve ser de alegria
Pois eu lhe amo tanto...”
- Uma vez me disseram que o amor é brega! – Ela disse sorrindo.
- Então quero morrer brega! – Ele confessou.
Riram juntos e ele a beijou sob o som de Diana, bregamente, singularmente, quase como se fosse a primeira vez.
Domingo, Abril 13, 2008
Coisas que me farão sempre amar você
Certo dia, em meio a algumas tristezas, ela pegou o bloco de notas entre os livros e sua caneta predileta, a que mais usava para escrever. Empunhada, começou a deslizar sobre letras e linhas. E estas diziam assim:
"Coisas que me farão sempre amar você:
O jeito que você me olha, seus olhos verdes.
O jeito como você anda e gesticula.
Sua pele branca.
O seu sorriso, aquela minha tal amizade de todos os dias.
Quando você me chama de seu bebê.
Quando você diz que me ama mais que tudo.
Quando você me diz que se me pegar com outro me mata, mas nunca me deixará por isto!
Quando você faz sua única especialidade na cozinha: sopa de legumes.
Quando você diz que minha comida é a melhor do mundo.
Quando você brinca me chamando de Mina.
Quando você..."
O fato é que ela não conseguia parar de escrever. Havia muita coisa, muita coisa. Quando terminou de escrever o que parecia não ter fim, exausta, deixou o bloco aberto sobre a mesa para que ele pudesse ler e entender o quanto sempre foi amado.
Segunda-feira, Abril 07, 2008
Domingo, Abril 06, 2008
Quem é de quem?
Sem nenhuma grande pretensão, me sentei mesmo perto do restaurante que escolhi. Não estava querendo andar muito. Sabe aqueles dias em que a preguiça bate e fica?! Meu sábado, com certeza, era esse dia. Olhei em volta e percebi o bonitão da esquerda. Ele sorriu. Hum! Eu também sorri. Estávamos nos sintonizando quando ela apareceu... Mas olha o vestidinho! Gente, na boa, sem noção. Um frio do cão e a biscate naquele tubinho preto, arrasando?! Ele olhou pra ela. Que ódio! Como assim? Prefere essa vaca a mim? Francamente poxa! Pensei tudo isso enquanto estampava, agora, uma cara parcimoniosa. Ela carregava uma bandeja. Deixou cair a carteira que apoiava no canto, perto do prato. Eu, quase que mecanicamente, fitei a cena. No fundo queria ver até onde ía a situação. A entubada de um lado e a encanada do outro. Será que ela havia percebido a rivalidade? Ele, que a essas alturas pra mim já era puto, se levantou e foi ajudar. Palhaço.
- Oi.
- Ah, oi. - ela se surpreendeu.
Agiu como se não tivesse visto ele antes. Como se estivessem cruzando o olhar pela primeira vez. Mas, além de tudo é cínica? Que vaca! Uma vaca bonita, eu tinha que me conformar, mas ainda assim uma vaca. O shopping cheio, ele quis ser gentil...
- Estou sozinho, quer se sentar comigo? - ele era só sorrisos.
Ah, me poupe! Agora já é demais! Não preciso ficar olhando isso. Decidi olhar para o lado contrário. Encontrei as plantas que ornamentavam a parte lateral da praça de alimentação e acabei me distraindo. Não vi o desfecho da história. Acabei de comer, paguei a conta na mesa, me levantei em direção ao grande corredor de lojas que me levaria até a saída. Eu só queria sair dali... Entretando, senti passos largos pelas minhas costas. Era ela. Nossa! O que será que o puto disse a ela? Bobagem, o alarme do carro dela deve ter disparado. Desencana!!! Decidi parar na próxima vitrine pra me certificar de que ela passaria logo por mim. Era só o que me faltava, né?! Parou na mesma vitrine que eu. Ai, meu Deus! Vai dar merda... Ouvi sua respiração ofegante ao meu lado, parecia nervosa, senti que tava olhando pra mim. Perto... Agora pertinho. Decidi olhar também. Ela disse:
- Você vem sempre aqui?
Sexta-feira, Abril 04, 2008
E a noite gelada sustentava seus pensamentos...
Escuta essa música! É nossa há muito. Lembra de quando a gente escutou pela primeira vez?
Você me abraçou tão forte que se fecho os olhos ainda sinto...
E quando você dorme se torna meu espetáculo mais particular. Meu anjo branco, nítido, enviado para iluminar tudo em minha volta, para me dizer como é a vida que eu odeio viver, para me lembrar do que minhas mãos esqueceram de fazer quando já no caminho, e sobretudo, é o que vai me salvar de mim no final de todos os dias.
Senta aqui porque preciso te contar. Vem cá, não me deixa assim tão só nesta noite. Eu aceito até ouvir sobre teus antigos amores somente pelo prazer de estar. Fala do teu dia, dos planos, de qualquer coisa que quiser...
Segunda-feira, Março 31, 2008
Domingo, Março 30, 2008
Acordo de acordes
E num dia de muita tristeza os acordes se reuniram e juntos disseram:
Acorde conosco que você vai pensar no verde das águas quentes desse Atlântico que está no Norte em que você vive.
Acorde conosco que sentirá a areia branca em seus pés sob esse céu azul que te protege.
Acorde conosco que acordará para se banhar na água doce que vem do coco, e que depois disso continuará carregando sua viola até o final da praia, e já no cais, presenteará os peixes conosco, seus acordes que te acordarão todas as vezes que você precisar...
Finalmente, acorde com estes seus velhos acordes de sempre que você vai tentar ser feliz, pelo menos tentar...
Ela tocou everlong com a cabeça escorada na caixa para ouvir bem os acordes.
Chorou.
Sexta-feira, Março 28, 2008
Sensações, movimentos e liberdade
Que não deixava o corpo dela parar...
Lentamente seguindo a batida
Se entregando ao ritmo
Fazendo bater o coração
Ele riu pra ela
Ela riu pra ele
Parece que os movimentos do corpo dela
No meio de tantos outros corpos
O convidava para vir
E ele veio...
Qradris
Movimentos vagarosos
Movimentos rápidos
Depois movimentos extasiados
Era a sensação boa invadindo a carne
Carnalmente feliz, quadris...
Depois de tudo, voou
120, 130, 140... Yeah! Born to be wild!!!
Sentia o vento nos cabelos que ajudavam escoar os pensamentos, medos e frustrações do dia
E que dia!!!
Aquela voz deliciosa ainda na cabeça
O corpo ainda pulsando, relembrando movimentos e também a velocidade com que voou
E ela voa sempre que quer porque é livre
Lembranças em flash
Pensamentos em slow motion
Cansaço...
Sono...
Adormeceu.
Domingo, Março 23, 2008
Trap ignored
Mas eu descobri tudo. Trata-se de um trap ignored: eu ando, vejo gente, dirijo meu carro, amo e odeio ao mesmo tempo tudo e todos, e depois volto pra casa achando que tudo vai ficar bem.
O alarme era falso e pode ser ignorado. Mais um dia se finda sob um pôr do sol ofuscado ora pela poeira, ora pela chuva.
Sábado, Março 22, 2008
O tempo e a poeira
A poeira formou uma cobertura espessa nos móveis e também no coração. Não foi capaz de encontrar ninguém que pudesse dar jeito naquilo.
Quer Docinho?
Docinho queria me matar
Latia sem parar
Até sua dona chegar
Eu achava um absurdo
Depois de passar por aquilo tudo
Com pressa andar
Pra Docinho não me abocanhar
Contudo fui mais esperta
Peguei minha bicicleta
E me dispus a procurar
O que Docinho iria amar
A falsinha virou minha amiga
Agora pede até pra eu coçar sua barriga
Pra um biscoito canino ganhar
Sem nunca mais rosnar
Segunda-feira, Março 17, 2008
Reflexo de um dia cinza
Levando meus pensamentos e ilusões
Piaf cantando
Fazendo-me rir, depois me sentir culpada e finalmente chorar
Agora eu e a chuva tão iguais como nunca antes.
Não me olho no espelho em dias assim...
Não quero.
Aleivosia em terceiro grau
Estavam indo bem apesar de algumas contas atrasadas. Tudo começou quando João contou:
- Ela é linda. Quero ela pra mim, ainda não sei como, mas vou pegar ela pra mim!
João estava apaixonado por ela, a menina do primeiro ano. Ele a conheceu durante o trote. Ficou tão encantado que acabou salvando-a dos ovos, farinha e daquela babaquice toda.
- Nossa! Obrigada! – agradecia a moça docemente.
- Magina! – dizia João encantado, sem tirar os olhos dela.
Trocaram telefone. Ele prometeu a ela que a apresentaria o campus. Conversaram sobre seus autores prediletos e ficou certo que ele a explicaria todo o trâmite da biblioteca. Sim, as letras os aproximaram e muito. Ele estava apaixonadíssimo, foi assim desde aquele primeiro dia. Ela não. Por isso, mesmo percebendo o quanto havia se tornado importante na vida de João, ela evitava assuntos que criariam oportunidades para ele se mostrar. Ele era para ela um grande amigo de todas as horas. E era bom tê-lo por perto.
Fim de semana chegando e os meninos iriam para casa. João achou que seria uma ótima oportunidade para passar o dia em casa com ela. Cozinharia:
- O que fará no fim de semana?
- Nada. To sem planos – disse a moça.
- Vou te esperar em casa. Você vai experimentar minha especialidade!
- O quê? – perguntou curiosa.
- Surpresa! – Ele nem sabia ainda o que faria. Claro que ligou para a irmã, Clarice, que o ensinou passo a passo como fazer macarronada de domingo num sábado. Bom, era a coisa mais fácil para se aprender de sexta para sábado!
Os meninos passaram a noite de sexta rindo do nervosismo do rapaz. Sábado Amando saiu cedo. Henrique acordava tarde, então demorou mais. João deixou tudo a postos na cozinha. A moça chegou perto das onze. Henrique praticamente de saída, já perto da porta, fez o favor a João que se preocupava com a comida.
- Oi – disse tímida.
- Oi, entra. João ta na cozinha – informou Henrique muito simpático.
Ela se encantou com Henrique. Ele, muito cafajeste, não economizou charme. Era assim com todas. Não seria diferente com ela. Por conta de um rabo de saia movia céus e terra. Foi exatamente o que fez. Inventou uma dor e não foi visitar os pais naquele fim de semana. Ficou. Como bom cínico que era, fingiu querer ficar no quarto. Ela não poupou esforços em mantê-lo à mesa.
- Magina, não vai ficar sozinho. Vai ficar com a gente aqui, certo João?
João sem opção disse sim. Fazer o quê?! Mas esse fato foi desgosto pouco. Segunda-feira, bastante indisposto, saiu mais cedo da aula. Não havia avistado ela naquele dia, o que tornou a bateria de aulas mais enfadonha do que assisti-las com a tal indisposição física. Chegou em casa e deu graças a Deus. As luzes apagadas evidenciavam que não havia ninguém. Isso seria ótimo. Sem delongas com Amando, sem a música infernal de Henrique. Abriu a porta, acendeu a luz da sala...
- Meu Deus! – disse a voz feminina assustada, desconsertada, nua... – Você disse que... – continuou, mas sem conseguir terminar.
João ficou sem reação. Parado ali naquela maldita porta. Baixou a cabeça, olhou o chão como se estivesse pedindo socorro. Contudo, simplesmente apagou a luz da sala, seguiu pelo corredor, abriu a porta do quarto, fechou. Silêncio...
Henrique, pela primeira vez na vida, sentiu o pesar de sua própria cafajestice. Havia traído a confiança de um amigo querido, que, sobretudo confiou a ele e também a Amando a paixão que nutria pela moça.
- Sai – disse ele.
- Como é? – ela estava perplexa. Afinal de contas tinham acabado de fazer amor. Ela ainda não entendia que para Henrique aquilo era só mais uma trepada entre tantas.
*
João mudou seu turno no trabalho. Agora comparecia às aulas pela manhã, não mais à noite. Ela se sentiu profundamente só depois disso. Tentou, sem sucesso, contato com João. Ele não atendia o celular, e freqüentemente mudava o trajeto, para de jeito algum encontrá-la. Ela descobriu da pior forma que João era a companhia perfeita. Sentia falta de ir à biblioteca com ele, dos papos na cantina, da companhia dele depois das aulas. Caiu em depressão profunda.
Henrique foi também ignorado por João. Não agüentou conviver com o desprezo do amigo e com o remorso da traição. Acabou se mudando da casa dos três, foi para outra cidade, outra universidade. Nunca mais esbarrou em João e muito menos nela.
João seguiu a vida. Conheceu uma menina legal no novo turno de trabalho. Casou-se, e de vez em quando a vê de longe com as crianças quando leva seus filhos ao parque. Ainda não sente vontade de falar com ela muito embora os olhares dela estendam um convite amistoso para isso.
Sábado, Março 15, 2008
Momentos
Por vezes, coincidentemente, se encontravam pela areia: sorrisos. Brincadeiras: fingindo breguice corriam um na direção do outro errando o abraço. Ele fingia ser a falta de seus óculos, jogando assim as lentes de lado. Cansados, sentavam na areia e se perdiam olhando o horizonte. Muitas vezes ficavam lá até a lua nascer. Lua magnífica, nascendo de dentro do mar, eternizando o instante.
Diziam que eram esquisitos, mas o fato é que gostavam das mesmas coisas: andar pela areia da praia deixando a água tocar os pés, bicicletas e mochilas no carro rumo a algum lugar estranho, andar pelo vale perto de vacas, cachorros e bichos diferentes. Para as pessoas isso era muito esquisito mesmo, elas estavam acostumadas àquela vidinha medíocre, portanto, demonstração de felicidade era coisa esquisita.
Ele sempre esteve muito convicto do que queria. Ela só o queria. Com o tempo tudo ficou esquisito de verdade. Mas coisas boas ficaram, momentos singulares realmente se eternizaram. Até hoje, mesmo tão distantes, levam com eles as boas lembranças de tudo que viveram juntos.
Cadê todo mundo?!
- Ah?! Tá louca? - respondeu a melhor voz do mundo ao lado dela.
- Mas você perguntou isso pra mim! Não tô loca! - insistiu a mulher ainda rindo.
- É a segunda vez na vida que te vejo bêbada. Ah, mas deixa pra lá. Você está alegre, ótimo ver você assim! Não é sempre... - disse sua melhor companhia se admirando e também já pegando as chaves do carro.
Sexta-feira, Março 14, 2008
De Maria
"Ah, você esqueceu o aniversário da Gláucia (26/02), o meu (28/02), portanto esqueça o da Adriana (02/04) para ficar tudo igual, ok??"
Casual
Acordaram radiantes.
Quinta-feira, Março 13, 2008
Dançando kung-fu fighting
Dançando kung-fu fighting sem se importar com a opinião dele
Esquecendo de quase tudo
Totalmente alheia a qualquer problema
Bom demais!
Quarta-feira, Março 12, 2008
O nome
Mas não era isso o melhor sinal da vida? Estar apaixonado não é viver intensamente? Não significava isso que ele permanecia na tal busca incessante?
As poucas sílabas o remetiam ao carinho, ao desejo, e enfim ao contentamento.
Adormeceu feliz.
Terça-feira, Março 11, 2008
Pesadelo de domingo
Lembrando-se do tal gajo, meio que sem perceber, começou a entornar muitos goles, justo ela que era de poucos [Filho da puta! Quem ele tá pensando que é?!]. Como já estava tonta, foi ao banheiro lavar o rosto na esperança que a água pudesse clarear suas idéias. A porta entreaberta deixava o pequeno rapaz observá-la. A pouca percepção que ainda restava nela, notou-o [Mas que moleque demônio!!!]. O vestido colorido, apropriado para o dia de sol, valorizava as belas pernas da moça, e prendia a atenção do mocinho [Taradinho!] que desde o início da comilança a seguia. Acabou derrubando o copo de cerveja que a acompanhou até o banheiro [Putz! Tinha que foder, né?!!!] Ela não tinha condições físicas para limpar a merda. Saiu do banheiro e esbarrou na velhota que passava.
- Bebeu demais, heim mocinha?! - disse a velha repreendendo a moça, que teve uma crise de riso ao fitar-lhe o rosto, mas justificou:
- A senhora é a cara da minha tia! Tia Cotinha. Devaaaaaassa! - ria a moça descomedidamente.
A velha virou o rosto em sinal de repulsa ao que a moça dizia e seguiu para a cozinha [Essa não me enche mais o saco!].
O papo perto da churrasqueira estava animado. Seguiu para lá. Talvez, se beliscasse algo da comezaina, pudesse melhorar da bebedeira.
- Gabriel! - era o churrasqueiro - Mês que vem teremos outro churrasco, é aniversário dele [Então quer dizer que o demônio tem nome de anjo???!!!]. Ela deu um sorriso sem graça, meio indiferente ao entusiasmo do homem, pensava somente em suas conclusões.
- Qual será o tema do bolo? - continuava o homem que já ria - Meninas super poderosas, né viadinho?!!![Só se elas estiverem peladas, claaaaaro!!!] O homem gargalhava, ela ria por dentro. O menino quase homem, tão platônico para com a nova moça da vizinhança, corou, fez cara de bravo, entrou e bateu a porta. Deu para ouvir do lado de fora o estrondo causado pela batida [Pelo menos o anjo-demônio-tarado vai dar um tempo!].
Por falta do que dizer, acabou dizendo interjeitivamente:
- Mas que calor!!!
Bastou isso para que todos os homens lhe voltassem a atenção. Água fresca, cadeira na sombra, cerveja gelada... [Meu Deus! Já não posso mais com isso, aff!] Eles babavam sobre ela, o que começou a chamar atenção de suas loucas esposas, obesas, e insatisfeitas com os tais barrigudos. Foi quando uma das crianças que corriam de um lado para o outro, desastradamente, derramou no vestido dela um copo de refrigerante [Puta merda! Só pode ser revanche pelo banheiro!]
É claro que depois disso tudo não havia mais clima para ela permanecer ali. Um tarado, barrigudos babando nela, as esposas loucas e as crianças-demônio... Ninguém merecia, certo?!
Chegou em casa, tomou banho, dormiu. Acordou no final do dia achando que tudo não havia passado de um pesadelo. O celular tocou: era o gajo!
Sexta-feira, Março 07, 2008
Terceto de um (só)
Sem senso
Sem você (só)
Meus pés
Bolhas: ai!
Reflexo de um dia (só)
Sua resistência...
A alma pecando
Você dormindo (só)
Não vou me culpar
Não vou chorar
(Só) vou tentar dormir
Quinta-feira, Março 06, 2008
Dia atípico
Dia atípico. Ela nunca foi de caminhadas. Bicho preguiça mesmo. Mas o dia, pensava ela, poderia ser bom. Andando pela rua principal viu a lotérica e entrou, fez uma aposta. Atipicamente. O sol bastante quente e a lan house ali. Ar condicionado tava virando vício. Essa coisa de trabalhar lado a lado com as máquinas deixam as pessoas esquisitas. Olhou através do vidro, mas não havia ninguém. Notou o menino encostado na mureta, que logo a abordou dizendo:
- Eles nunca atrasam. Hoje, não sei o porquê...
- Atipicamente... - disse ela.
- Quê? - disse o menino em dúvida sobre o vocábulo.
- Nada não - disse ela saindo meio sem paciência.
Continuou andando, pensando no quanto o dia ainda poderia lhe render. Atravessou a rua a procura de sombra. Passando pela calçada curta, tomou um susto por causa do rapaz:
- Viaaaaaaado! - gritava o troglodita [Hummm, bonito!] para o amigo do outro lado da rua.
Mas tinha que ser nos ouvidos dela?! Arianos são um problema quando irritados. Olhou-o de forma que ele pôde pressentir o quanto corria perigo de morte, ali, naquele momento. Ele se calou. Ela seguiu indignada, mas no salto, sempre vestida pra matar [atraente ele]. Só não contava com uma coisa: um tropeço.
- Se a princesa quiser ajuda, tô aqui - disse o troglo com um sorriso besta na boca.
- Se você quiser ir pro inferno eu mando - disse ela já se recompondo, furiosa [mas que gostosinho ele].
Ele riu, claro!!! Ela decidiu seguir com aquele ódio básico, mesmo achando ele interessante, sabendo que ia ser perda de tempo ficar por mais tempo ali. Pela boa moral é recomendável que não se saia dando pra qualquer um na rua. Assim ainda dizia seu bom senso... Andando por cerca de mais 1 km finalmente achou uma lan [Não tem ar condicionado, mas que droga!]. A moça pediu a identidade.- Mas menina, quem sai pra dar uma volta e leva identidade?
- A cidade de SP inteira?! - sarcasticamente a atendente dizia.
Ela se segurou para não quebrar a cara da moça ali mesmo. Respirou fundo, e quando já fazia menção de sair a moça decidiu liberar um computador. [Ah, já tô aqui mesmo, né?!] Como o humor já tava estragado, depois de meia hora decidiu ir embora. Mais 1 km de volta, quase outro tropeço. [É hoje!] Agora indo pra casa, lembrou que seria inevitável, pois ele estaria lá.
Ao chegar em frente ao portão constatou que havia perdido uma das chaves. [C-A-R-A-L-H-O!!!, era só o que faltava!!!] Mas não era. Ela tinha que cismar de pegar o carro e fazer o caminho de volta na inútil esperança de achar a maldita chave perdida. Ao tentar desviar da filha abelhuda do vizinho - que naquele exato momento tinha que bisbilhotar o que ela estava fazendo às 11 horas na garagem de 90°, sem cobertura, alugada, num sol de lascar - bateu no muro, depois no portão e quase na cara da vizinha curiosa do lado direito, que fez questão de sair até a calçada... Enfim, uns 600 reais acho que pagaria tudo. [P-U-T-A Q-U-E O P-A-R-I-U, SUA VACA] Então ela desencanou [não poderia ter desencanado antes?!], ligou para imobiliária e o cara alto, magrelo, e sem humor algum, trouxe a chave. [Aff!]
Enfim dentro de casa. Ele estava acordando...Não se falaram. Ela se aprontou para ir ao trabalho, ele também. Ele não soube de nada, e ela tão pouco iria contar. [Quero ver quando ele olhar o carro!] Durante a tarde não trocaram telefonemas como de costume. Absortos no trabalho nem saíram para um café. Ela nas coisas dela, ele também.
Quarta-feira, Março 05, 2008
Clichê
Já te disse que estou a procura de gente perdida? Gente perdida como eu: que se perde em palavras, pensamentos e também no verbo. Mas eu já disse isso antes, aqui mesmo. Clichê, né?!
Terça-feira, Março 04, 2008
Com ela também a devassa Carlota Joaquina
Prendam Lygia Fagundes Telles e suas meninas
Sumam com Lygia Bojunga que me deu tchau levando minha mãe embora naquele dia
Calem eternamente Cecília Meireles, poetisa da minha adolescência
Jamais mencionem Clarice Lispector e sua vã filosofia em tantas e tantas linhas
Arranquem Yentel das telas, pois agora só será permitido ilustres livros ilustrados
Afinal pra que servem as letras para uma mulher?
A gramática será permitida somente àqueles que possuírem pêndulos, mesmo que não a usem, sim, nem a gramática e nem os pêndulos
Matem todas as mulheres que pensam
Matem sem pena, somente deixando vivas as galinhas
O dó não é algo a ser cultivado, nem a verdade, nem qualquer coisa que seja casta ou pura
Detenham as mulheres de raciocínio lógico, pois isto se tornou algo inaceitável
Apenas deixem que elas desfilem com seus magníficos vestidos curtíssimos para eles
Façam os homens felizes pelo prazer carnal
Conceba machos para que possam perpetuar a vida de seus sobrenomes
Ó mulheres, desistam de ser mulheres."
Depois de escrever estas linhas num pedaço de papel, ela adoeceu e não foi trabalhar.
Segunda-feira, Março 03, 2008
Incondicionalmente dela
- Mas que cadela!
Entretanto, segurava o choro quando ela finalmente atendia o celular dizendo que iria. Depois de umas três horas ela aparecia, linda! Ele, por sua vez, mesmo com toda aquela demora, ficava feliz. Observando cada gesto, cada movimento dela.
Em muitas ocasiões, ela o enxergava como um menino grande. E isso a tornava mais tolerante em algumas situações:
- Nossa, como é frio aqui. Vou rebootar o servidor 01. Dá uma olhada no servidor 02 pra mim? - falou ela já olhando para a máquina no gélido bastidor.
- Vou verificar o cabo - disse ele se encostando por trás dela, se aproveitando da solidão do lugar apenas habitado por máquinas.
- Olha a porra da câmera - disse a moça fingindo estar completamente alterada, mas no fundo achando engraçado.
Como cachorro molhado na chuva, ele colocava o rabinho entre as pernas e dava linha, já prevendo que poderia ter seus privilégios cortados quando saíssem dali: a perda da casinha, da mantinha e até da ração.
- Ah, isso não! - protestava quando pressentia que ela lhe daria um ninja.
E por muitas vezes ela nem aparecia mesmo. Sumia pela maior cidade da América Sul. Não atendia o celular, claro! E ele enlouquecia.
Numa segunda-feira ele preparou o troco. Ela passou por ele sem dispensar muita atenção. Ele muito puto, convidou a Márcia para almoçar. Depois do almoço se sentaram num banco próximo ao jardim que ficava na frente da empresa, onde era mesmo comum descansar depois das refeições. Ela passou e viu a cena que parecia ser tão íntima, e resolveu ir até lá. Sem olhar na cara da Márcia disse:
- Quero falar com você - ela não fazia idéia do que falaria.
- Depois conversamos - disse ele calmamente.
Dessa vez ela olhou para a Márcia e fuzilou:
- Dá licença? - bufando.
Ele riu sem deixá-la perceber. A Márcia, coitada, não entendeu nada. Porém, sem divagar, se foi. Ele permaneceu calado, sério, mas rindo por dentro. Enfim decidiu dizer, mas sem olhá-la ainda:
- E...?
Sentiu-se vingado. E sabia que a teria mansa por pelo menos uma semana. E era assim que acontecia entre os dois. Em meio a tantas coisas o tempo se foi... De uma forma bem natural, a necessidade de querer mais foi chegando, sempre muito mais para ele do que para ela.
- Quero morar junto - disse sério - Depois de tanto tempo juntando grana finalmente encontrei algo aqui perto - comunicou ele.
- Quê?! - disse incrédula.
- Quando posso buscar suas coisas? - perguntou ignorando a reação da moça.
- Nunca - respondeu ela.
E lá ia a coitada da Márcia ser convidada para mais um almoço!
- Ah não, não mesmo! - murmurou baixo, indignada com o convite dirigido à Márcia.
O fato foi que ele acabou indo mesmo pegar as coisas dela. A condição era que ele não pegasse tanto no pé dela. Isso significava ligar menos no celular, parando assim de querer saber todos os passos dela; significava também ficar menos doente em domingos de sol, e até sair sozinho com os amigos para um chopp.
- Tá aqui há muito tempo? - perguntou ele esboçando um sorriso.
- Não, acabei de acordar. Tive sorte, o sol vai se pôr agora - disse ela revelando um gosto que ele ainda não conhecia.
- Comprei sorvete hoje no mercado. Quer de chocolate ou de creme? - perguntou querendo agradá-la.
- Creme - respondeu gostando do sol morno que invadia a sacada.
Ela prosseguiu no sorvete enquanto assistia o espetáculo singular oferecido pelo sol. O sorvete dele derretia enquanto ele somente a assistia.
Sábado, Março 01, 2008
Últimas cenas
- Oi. O que faz aqui tão só?
A jovem ergueu a peça e sorriu. A avó devolveu-lhe a gentileza em dobro.
- Vim aqui para lhe dar isto. Algo para se lembrar de mim.
A moça sorriu ao pegar o trançado de linhas. Pensou no trabalho que ela teve em aprontar aquilo: tão precisa, tão prendada. Convidou-a para que passeassem juntas pela areia da praia.
- Receio que o sol ainda esteja muito quente para mim - disse a linda senhora de cabelos completamente brancos.
Estas foram suas últimas cenas juntas. E hoje quando a jovem se lembra dela, pensa que deveriam ter sido mais próximas, mais amigas. Poderia ter sido bem melhor do que foi. Contudo, ainda assim, a jovem, agora mulher, carrega a certeza de que findou aquele dia com palavras, ações, e sorrisos certos, certa de que havia dado início a um ciclo cheio de cumplicidades. E a amizade que foi selada naquele dia, ressurge em meio a tantas reminiscências em dias de chuva como este.
Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008
Verdades sobre nós
Lembrei-me daqueles nossos momentos tão constantes em tardes infindáveis
Quando nos deitávamos lado a lado
Ora Jogando conversa fora
Ora falando da gente
Tantos planos...
Nunca nenhum engano.
Teu sorriso minha melhor amizade de todos os dias
Teus abraços... E ainda há braços pra mim
Tua mão na minha
Teus olhos nos meus
E tudo sempre foi tão intenso até que a noite caísse
Aquele sentimento de ser nem noite nem dia que você adora
O quarto escurecendo
E a gente descobrindo no escuro do mundo onde estava tudo que a gente queria
E no início de tudo eu nem te amava tanto...
Você tem mesmo razão...
A gente se pertence
E sinto que é pra sempre
Simples assim.
Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008
Tia Cotinha
Que atrás da moitinha
Olhava João a se banhar
Decerto era o ar da fazendinha
Que fazia a velha canguinha
Se regalar de tanto o moço espreitar
Correndo ia para o seu quartinho
Procurando seu cantinho
Para sozinha se refestelar - Ula-lá!!!
Cotinha era chata
Pensava manter moral intacta
E eu por trás a gargalhar
Me seguia até o ribeirinho
Onde eu e Joãozinho
Estávamos somente a brincar - ha-ha-ha
Mas logo chegava a velhota
Que com a cara torta
Se punha a nos olhar
Ah, tia Cotinha!
Te conheço de tantas outras linhas
Que não ouso revelar!
Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008
O Buraco e o Mundo
Casamento na igreja, filhos depois dos cinco primeiros anos, e sabe-se lá mais o quê
Bati a porta e tomei o rumo do quarto
Abri a janela para despistar a fumaça
Tornei a fechá-la, detesto os olhares curiosos
Da semana passada ainda o buraco que fiz na parede, aos poucos, com clips, grão a grão
Observei o mundo do lado de fora e vi o quanto ele era pequeno
Pessoas se movimentam todo o tempo
De um lado para o outro
Tão perdidas quanto eu
Nem melhores
Nem piores
Só menos desenvolvidas
E acreditem
Eu vi tudo isso do buraco na parede do meu quarto.
Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008
Tinha mesmo que ser assim
Todos os traços, marcas, infâmia memória
De ser o que se quer
E bem quer
De tudo experimentar
Da vida se regalar
Longe da tristeza agora vaga lembrança
Sozinha no nada
E a vida continua...
Conspira e traça
O que há de ser o amanhã
Deixa pistas, vestígios fatídicos
Deixando escapar detalhes que já sei
De noite, na beira do rio
A água morna, resultado do dia quente, toca meus pés
A leve brisa minha pele
Olho para o céu
E as esperanças se renovam para o próximo dia...
Tinha mesmo que ser assim.
Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008
Mas que merda é essa?
Esses putos deixam a gente assim
Babacas
Seus merdas vindo dos infernos
Queimem eternamente, pois isso é pouco
Vocês tão fodidos na minha mão
Mulher é phodda, isso mesmo, com "PH" e dois "D"s de Toddy
O problema todo se resume em "eu sou mulher"...
Se eu acreditasse em coisas do além
Pra phodder de uma vez
Eu pediria emprestada uma certa bunda eterna
E não só seduziria teus filhos
Mas faria eles arrebentarem vocês
Neste momento, isto não se trata de uma ameaça
É só um aviso.
A bunda eterna é da Paco:
http://omundopolemicodapaco.blogspot.com/2008/01/sampa-revisited.html
Quinta-feira, Janeiro 31, 2008
Fragmento
Alivio esse tormento
Que há tempos
Permanece em meu encalço
Duro isso...
Sempre foi assim
Tudo ao mesmo tempo agora
Sempre vai ser assim
E tem mesmo que ser asssim?
Quando tudo que eu quero
É ser apenas uma personagem
Quem nem precisa ser descrita em rimas
Nem em português certinho
Só quero mesmo é um cantinho
Onde eu possa ser feliz.
Sexta-feira, Janeiro 25, 2008
História de Antônio
Não se contentou com o emprego na loja
Dizia que ia ser médico, curar a alma humana
Por isso abriu o Copo Sujo
Onde os homens da periferia se divertiam
Era mesmo muito sujo o tal inferninho no subsolo da 7 de maio
Comprava mocinhas virgens na Bahia, sua terra mãe
O que começou a lhe render muito cacau
O suficiente para nunca mais pisar naquela maldita loja
Ele virou o Rei do pedaço
Peão atrevido era boca na lama
Por isso muitos inimigos
Mal sabia que com ele não seria diferente
Tantos homens juntamente
Para feri-lo mortalmente
O jogaria na mesma lama
Que outrora matou Vicente, Clemente e tanta gente.
Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
Sentimentos que ainda tenho por você
Saudade, inimizade, descontentamento
Permanece a saudade que sinto de você
De quando me acordava com beijos doces
Nessa época não existia a tal foice
Que tempos atrás dilacerou esse meu coração
Que hoje não vive
Só sobrevive
Mas que naquela época também sobrevivia
Pois por tua causa também já não vivia
De tanto que você chorava ao vento
Julgando-me sempre sem sentimento
Cobrando-me a solução que eu não tinha
Culpando-me pelos seus desatinos
Daí ficamos assim...
Nem eu
Nem você
A vida vai andando
E nós continuamos nesse pranto
Devagarzinho definhamos até morrer
Domingo, Janeiro 06, 2008
Incansável espera
- Estou com frio, cobre?
Ele não hesitou. Imediatamente atendeu seu pedido. Ela aquecida voltou a dormir. Ele, depois de um tempo, também. Acordaram com a chamada do telefone que não foi atendido. Ele olhou-a longamente de maneira terna. Num prelúdio amoroso deixou-a sem fôlego por tantos beijos e abraços. E assim foi pelo resto do dia.
- Tenho que ir.
- Não – disse ele.
- Preciso. Estão me esperando- justificou ela.
Ele não dormiu nas noites seguintes. Ficou pensando em tudo. Nela. Ainda espera uma ligação. Ele ainda a espera. Sempre.
Everything's 'bout you
Hard days...
I still have the storm
This cycle doesn't end
Where are you when I need you?
I still can see my enemies around
My blue butterfly from the childhood I didn't have shows me the light
And I keep myself there
Sitting on my own
With my head up
Just feeling the wind touching my skin
Realizing that everything's 'bout you
Terça-feira, Janeiro 01, 2008
Primeiro dia
Vizinhos animados
Segundo uma grande amiga minha, Paulistanos vivem de fogos, baladas e engarrafamentos
Eu só de sonhos...
Não sou Paulistana
Hoje nem sei se sou alguma coisa
E sobre alguma coisa nem sei
Sei de nada, nem de tudo
Aquém de mim só esse peso
Além já não consigo ver
Sigo assim mesmo
Arriscando sempre e nunca
Nunca sempre.
Sábado, Dezembro 29, 2007
Passado?
- Que passado? Só existe presente: você!
- Ou você admite que tem um passado ou não preparo seu café.
- Tá, tudo bem!
- Agora eu quero nome, endereço e telefone de todo mundo. Bora, anda! Tô esperando...
Terça-feira, Dezembro 25, 2007
Neurose Natalina
Detesto
Gente que fala demais
Coisas sem sentido
Também detesto
Eu sempre falo
Mas ninguém dá ouvidos
Vida mais besta essa.
Segunda-feira, Dezembro 24, 2007
Regina
Quinta-feira, Dezembro 20, 2007
Pensamento positivo?!
- Desgraçado! Você há de pagar todo mal que me fez.
Naquele mesmo instante, no outro lado da cidade, de longe foi possível escutar o estrondo causado pela colisão entre os dois carros. Não tinha como juntar todo o corpo.
Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
Passional
- Unhum.
- Vai chegar tarde? - perguntou já sem chão.
- Unhum.
- Mas... Mas, sozinha? É perigoso! - disse ele preocupado.
- Combinei com um amigo - disse ela sem dar-lhe muita importância.
- Que amigo? - Perguntou ele quase sem acreditar no que ouvia.
- Ah, um amigo, ora! - respondeu a moça com descaso.
Ele se sentou no sofá do quarto e principiou a pensar nos quatro anos que viveram juntos. Pensou também no desprezo que ela dispensava a ele. Duas semanas separados e ela já tinha um novo amigo. Cresceu dentro dele um sentimento horrendo. Era ódio e dor. Desesperou-se de uma forma incompreensível. E ela morreu pedindo a clemência que ele não teve.
Terça-feira, Dezembro 11, 2007
Lembranças
Lembranças de sonhos que eram pra vida toda
Lembranças de quando podíamos levantar as mãos para o céu e sentir
Lembranças...
Inseguranças constantes
De uma vida que já fez sentido um dia
Um dia...
Agora lembranças
Devaneios em noites de lua
Nuas lembranças que atormentam
Que tornam esta noite mais mórbida do que já é
Que nos torna apenas lembranças
Segunda-feira, Dezembro 10, 2007
O mundo parou
Sexta-feira, Dezembro 07, 2007
Quimera
Não posso contê-lo
Vem com passos largos
Aliciando-me com o estrondoso barulho que causa seu rugido
Em função dos estrondos em inércia permaneço
E então num ato pérfido, ele lança contra mim suas chamas ardentes
Num lance de sorte alcanço meu escudo
Empunho minha dura lança que descansava nas cercanias
Luto bravamente
Perfuro seu rabo de dragão
Cravo a lança de forma certeira
E ele brame longamente...
Infinitamente...
Domino o temível monstro
E depois de cansáveis estocadas, meu quimera morre
Entrego-me ao cansaço
Durmo profundamente
Durmo.
Quinta-feira, Dezembro 06, 2007
Seu prólogo me antecipou o final do solilóquio daquela tarde. Se ao menos eu tivesse uma chance de te explicar tudo... Mas eu sei que você jamais se permitiria escutar meu silogismo. Não, definitivamente, não! Pra você tudo que vem de mim é muito barato. Este fato fez a sua companhia me custar muito caro.
Quando foi que você me perdeu? Quando foi que você me matou? Nem eu sei...
Em algum momento da vida a gente tem mesmo que enlouquecer. Você tem toda razão. E agora eu decidi que enlouqueci. Ser sã é sofrer. É morrer a cada minuto da realidade. Realidade esta que infringe os sentimentos mais puros dos humanos. Ela mata, e tenho ciência que disso também morri.
Terça-feira, Dezembro 04, 2007
Cobiça
Não entendo ainda completamente o que ocorreu. Confuso. Esse seu interesse é muito diferente do meu. Não me importo com o que você possa fazer, desde que não afete meu caminho. Contudo, devo levar em consideração que, em seu caso, não era somente invadir minha privacidade, mas era invadir a privacidade de quem lhe roubara o que poderia ter conquistado de melhor em sua vida. Portanto, preciso entender sua amargura. Isto pra mim é quase uma obrigação.
Tenho o bem que cobiças... Aquilo que me proporciona o melhor da vida. Tenho o que te rouba o sono nas noites mais quentes e intranquilas. E às vezes balbucio um "pobre de você", pois tenho vida e quero seguir assim...
Quinta-feira, Novembro 15, 2007
Pensamento gris
Gosto dos bichos. Aqui nesta cidade a gente não os vê, exceto as cobras, estas têm. Elas têm contribuído bastante para o aparecimento de alguns de meus cabelos brancos e rugas. Cobras malditas, peçonhentas! Qualquer dia desses mato todas elas. Matar cobras é um trabalho sujo e chato. Bom, eu não gosto. Não gosto mesmo.
Estou ficando velho e só. Preciso sair daqui. Tenho medo de morrer sem ver o mundo, sem ter amigos, sem ter dinheiro. Tenho medo de tantas coisas. Minha mãe não me preparou para isto. Minha mãe me preparou apenas para permanecer ao lado dela. Ela não me preparou para vê-la morrer. Conversávamos sobre política quando ela subitamente sentiu uma dor no peito e se foi, levando parte de mim também. Pai eu mal conheci. Lamento por isto. Lembro-me vagamente dele presente em minha infância. Vagamente. Friamente. Quase sem amor. Portanto, era só minha mãe mesmo.
Não posso permanecer assim. Vou reunir forças para me levantar e ir trabalhar. Aquele meu chefe! De fato, isto tem sido uma tortura, dia após dia. Preciso me apressar. O carro quebrou e terei de ir de ônibus. Lá fora tá frio. Melhor pegar um casaco. Aqui é sempre muito frio...Aqui nunca é quente.
Sábado, Outubro 13, 2007
Luta diária
Facada nas costas com direito a tapinha
Sigo sozinha
Nunca fora da linha
Não há rima que descreva
Tanta cretinice
Bobagem cultivada pelos seres humanos
Essa coisa de querer ultrapassar barreiras
Sempre às custas alheia
Não ralho
Não caio
Presto atenção para não seguir na contra-mão
Pra não crer em tanto devaneio
Vou pra casa
Deito
Durmo
Amanhã começa tudo de novo.
Domingo, Setembro 23, 2007
Sem título
Sábado, Agosto 25, 2007
Nota
Quinta-feira, Agosto 23, 2007
Saudades do meu Amigo
Ele sempre atendeu a maior parte dos meus pedidos. Ele também me dava muitos conselhos, me dava quase tudo que eu o pedia. Acho que se eu fosse colocar na ponta do lápis tudo o que meu amigo me proporcionou, certamente eu não poderia, pois trata-se de muito, e muito não caberia nestas linhas. Dinheiro nenhum que eu possa ganhar na cidade grande, paga tudo isto entre mim e meu amigo.
Fico pensando se ele sabe mesmo que penso nele todos os dias. Será? Todos os dias tenho coisas a lembrar e pelo menos uma vez balbucio seu nome mantendo-o sempre em meus pensamentos, chamando-o a me ajudar. Sem ele tem sido difícil, pois nunca ninguém será tão atencioso comigo. Eu sinto muita falta do meu amigo, esta é a pura verdade. E se eu pudesse vê-lo hoje... Diria isto a ele.
Quarta-feira, Junho 13, 2007
A Fogueira das Vaidades
Segunda-feira, Abril 16, 2007
O homem que não tinha ilusão
Eles mantiveram essa relação morna por dois ou três anos. Vez ou outra a conversa parava na ex-mulher dele. Lamentável. Tudo foi se tornando cada vez mais enfadonho. Que tipo de homem reclama a ex-mulher para a atual? Ela se cansou. Naquele dia ela voltou para casa decidida a mudar a relação. Uma amizade em consideração aos dois ou três anos juntos estaria de bom tamanho, pensou ela tomando a decisão.
Ele percebeu a escassez dos encontros. Ela passou a se dedicar mais a universidade, sair com os antigos amigos que eles tinham em comum, e algumas vezes até chegaram a sentar-se na mesma mesa na companhia desses. Ele via felicidade no sorriso dela. Ela estava tão viva! Ele nunca havia a observado daquela forma. Agora ele a queria. Voltou a telefonar para ela, e muitas vezes ele passava em sua casa com a intenção de arrancá-la para um passeio e quem sabe uma esticada no bar. Em vão. No fim do ano ela se mudou para longe por causa de uma oportunidade profissional. De vez em quando ela se lembra dele... Mas logo esquece. Pois é assim que acontece com os mortos. São lembrados esporadicamente, na maior parte das vezes em situações adversas. Depois vem outro dia, e outro, e mais um. Logo se restabelece a rotina.
Sábado, Março 31, 2007
É eterno
Terça-feira, Março 27, 2007
Morte na noite
***
Ela voltou para casa amargurada. Chegou antes das dez. Os meninos já estavam deitados. Puxou uma cadeira e se sentou na cozinha. Chorou. Passou as mãos nos cabelos colocando-os para trás. Ela era quase bonita, mas mal cuidada pela vida. Adormeceu ali. Depois de muito tempo o marido chegou colocando a porta ao chão, falando alto, aterrorizantemente violento. Agarrou-a pelos cabelos e principiou a bater sem que ela tivesse tempo nem mesmo para perguntar o porquê estava sendo castigada. Ela ficou caída no chão da cozinha, e ele se sentou onde ela estava e adormeceu ali mesmo. Ela respirou fundo e encontrou forças para se levantar. Debaixo da pia ficava a machadinha. Usava para abater a galinha do domingo, quando tinha. Ela não teve dúvidas. Impelida por aquela dor que ele lhe causava há anos, ela o golpeou sem parar com toda força que ainda lhe restava. Ele ficou por duas semanas no hospital, entre a vida e a morte. Dizem que ele gritava pelo nome dela, e jurava que se saísse dali ela seria uma mulher morta. Mas isso só durou duas semanas mesmo, depois ele morreu.
Ela permaneceu em cárcere por vinte anos. Quando finalmente saiu seu querido pai já tinha ido embora. Os meninos já estavam homens feitos. O avô cuidara deles para ela, no entanto nunca fora visitá-la. Era mágoa. Ela nunca mais se casou.
Domingo, Março 11, 2007
Perder-se
Gosto de gente que procura respostas que não existem, não por perda de tempo, mas para tentar entender o que não tem entendimento. Definitivamente talvez eu goste de gente. Entretanto, por muitas vezes quero distância de gente.
Este sentimento é mesmo de gente... Gente feito eu... Que se perde em pensamentos e também no verbo, ou que simplesmente se perde... Puxa! Quanta gente perdida!
Sábado, Março 03, 2007
O Mexicano

O mexicano Miguel Salinas tinha a mesma idade que eu. Era um rapaz baixo, pele bem morena, de olhos meio puxados e cabelos negros. Ele havia chegado uns dias antes de mim, e se incumbiu de me apresentar o quarto com cortinas de cor marrom, o que chamou bastante minha atenção, pois eram muito grandes para um quarto tão pequeno. Ele era bastante sociável, e como eu, gostava muito de literatura. Durante os cinco meses que dividimos o mesmo teto fomos algumas vezes à biblioteca da faculdade, e frequentemente discutíamos literatura Americana. Isto contribuía para que tivéssemos uma convivência pacífica. Mas, infelizmente não foi assim o tempo todo.
Acordei com a nítida sensação de estar sufocando. Olhei para o canto do quarto e Miguel estava sentado no puff preto fumando um charuto. A fumaça tomou conta de todo o quarto. Por causa do frio excessivo, mantínhamos o sistema de calefação funcionando, e obviamente janela e portas eram mantidas fechadas. Levantei furioso, e segui em direção ao banheiro batendo a porta. Essa cena se tornou comum em nossas manhãs. Ele sentava-se no puff e fumava olhando através da janela. Era um olhar perdido. Ele mantinha nas mãos um paninho onde cuspia à medida que fumava. Aquilo me causava repugnância. O banheiro era coletivo, e no nosso quarto tínhamos uma espécie de lavabo com pia e bidê, mas sem chuveiro. Eu sempre fui um cara calmo, mas ver a pia entupida, o bidê sujo todo santo dia estava me deixando sem paciência. A essas alturas as diferenças culturais iam se acentuando, e no final da quarta semana confesso que queria matá-lo. Ele já não era Miguel Salinas, para mim ele havia se tornado o mexicano.
Era fim de semana e mais uma vez acordei com a fumaça do maldito charuto. Decidi que não ia discutir com ele. Tomei um banho e coloquei minha roupa mais quente. Procurei minhas luvas no armário, mas não estavam lá. Não acreditei que o filho da mãe havia pegado minhas luvas. Mas tudo bem, era sexta e eu já tinha decidido que ia visitar meu tio que já morava em Illinois por mais de dez anos. Peguei meu pequeno guarda-níquel, coloquei no bolso do casaco e saí em direção ao ponto de ônibus. Estava muito frio, talvez fosse o dia mais frio em todo tempo que permaneci na cidade. Eu estava literalmente congelando. Depois de um tempo vi o ônibus apontando na avenida, e me apressei em separar as moedas. Para minha surpresa e ódio, não havia uma moeda sequer. "Mexicano desgraçado!", foi o que gritei. Voltei para a Faculdade chutando tudo que via pelo caminho. “Ah mexicano fila duma puta!” Fiz o percurso em menos de 10 minutos. Entrei no quarto de supetão. Milagrosamente o filho da puta tinha ido tomar banho. Ele ficava sem tomar banho por muito tempo, e justamente naquele dia tão frio o cretino decidiu se lavar. Esperei irritadíssimo que ele voltasse ao quarto, e, finalmente quando ele adentrou fui pra cima dele. Eu nunca havia agredido ninguém na vida, nem quando eu era moleque na época da escola. Ele tentava fugir, me driblar, mas eu era mais alto e forte, de forma que era inútil todo o esforço feito por ele. Quebrei a cara dele, abri sua carteira e peguei umas moedas pra pagar o ônibus. Quando eu saí, ele tava chorando.
Senti pena, mas não arrependimento. Esperei alguns dias e só voltei lá pra pegar minha roupa. O inverno se foi e o mexicano também. Fizemos as pazes antes da sua partida, e até hoje nos correspondemos por e-mail. Ele se casou, tem uma filha, e parece estar feliz. Na minha memória ficaram muitas recordações, dentre estas também o cheiro do charuto. Ainda odeio charutos.
Domingo, Fevereiro 25, 2007
Crise
Domingo, Fevereiro 04, 2007
Sem olhar para trás
Sábado, Janeiro 27, 2007
Memórias infantis

Percorreu o calçadão apenas escutando o zunido do vento. Não havia uma alma viva ao redor, então ela se sentiu a vontade. Sentou-se no lugar de sempre e avistou a chuva que caía retilineamente no horizonte. Foi quando lhe foi dito:
- Mon petit! Tão só...
- Não me chame de Mon petit - respondeu ela de forma exasperada.
- Mon cher, sempre irritada desde que éramos crianças.
- E ainda assim você continua me chamando desta forma - disse ela baixando a cabeça fitando a água revolta.
- Você arrependeu-se, não foi?
- Arrependo-me todos os dias. É a primeira coisa que faço quando acordo antes mesmo de saber se ainda tenho força suficiente para levantar-me da cama - disse ela contristada.
- Você ainda vai ao vale? - perguntou a ela.
- Não, nunca mais fui. Aquele foi o último dia que estive lá.
Passava por ali seu vizinho, João, que apressado corria da chuva que estava por vir. Olhou em direção ao cais e viu a moça que conversava com o nada. Imediatamente pensou que ela havia enlouquecido como a vizinhança já comentava. Continuou seu caminho sem olhar para trás.
- Achei que você jamais seria capaz de dar o golpe derradeiro.
- E eu achei que você um dia pararia de me aborrecer. Pedi isso a você tantas vezes... Mas teimosia sempre lhe foi algo inerente. Entretanto, devo dizer que aquilo foi sem pensar. Aquilo... Aquilo foi animalesco, tornei-me irreconhecível aos meus próprios olhos. E quando pensei em parar você já tinha ido há muito tempo. Entrei em desespero. Atirei-me ao rio e depois subi correndo. Não me preocupei com seu corpo porque o vale sempre foi cheio de animais selvagens, e era justamente por isso que nossas mães nos proibiam de ir até lá.
- É... Doze anos você e onze anos eu.
- Só acharam suas roupas... Rasgadas, praticamente em tiras. Chorei agarrando-me a elas.
- Chorou verdadeiramente?
- Sim, verdadeiramente. Mas já não adiantava. A voracidade de um animal selvagem não deixa nada vivo, nada inteiro. Ávido, dilacerador, ímpeto destruidor é um animal selvagem que come a carne e rói o osso. E este animal foi quem me livrou de maiores explicações sobre aquele dia horrendo. O que aconteceu foi que nos perdemos um do outro, e eu como sempre fui mais esperta consegui sair do vale. Quanto a você, você se perdeu no vale da sombra da morte.
- E eu temi a morte. Senti um medo profundo, inigualável a qualquer medo que eu já tivesse sentido antes.
A chuva despencou enquanto ele lhe falava. Os pingos se confundiam com as lágrimas no rosto dela que agora já chorava sem controle. Levantou-se de uma só vez e precipitou-se a correr sem rumo. Ao mesmo tempo, João, que havia passado pelo cais momentos antes, mesmo com todos os comentários da vizinhança de que ela era desequilibrada, resolveu voltar, pois sentia certa simpatia por ela desde que eram crianças, na verdade começou quando ele se sentiu penalizado vendo o sofrimento da menina quando da morte de seu companheiro inseparável de brincadeiras. Em nome desse sentimento tão puro resolveu então ir de encontro à moça. Penalizou-se dela. Chegou a tempo de ver o desastre. O frágil corpo de mulher fora jogado longe. O motorista do circular correu em direção a ela. João também. Mas já não tinha jeito. Havia chegado ao fim a grande batalha entre a vida e a consciência.
Quarta-feira, Janeiro 17, 2007
E no ano passado...
- Não sabia que você tocava. Toca bem!
Sem graça esbocei um sorriso e agradeci.
- Posso ficar aqui ouvindo? – continuou ele.
- Claro – respondi desconsertada.
Desde aquele dia nunca mais paramos de conversar. Passamos a fazer coisas juntos. Nós gastávamos tempo lendo, andando na praia, comendo pipoca, vendo TV e tentando achar os lugares onde ele tinha que ir pela cidade. Impressionante como ele sempre se perdia. Era um sujeito cronometrado: tenho meia hora antes de ir, tenho mais 5 minutos pra dormir e 3 para me vestir. Eu reclamava. Aquilo era demais pra minha cabeça. Dávamos boas risadas! Ele era inteligente e sempre tentava ser coerente em tudo que dizia. Era sensível, adorava poemas. Tornamo-nos confidentes e falávamos horas a fio sobre isto ou aquilo. Era perfeito. Apaixonei-me.
- Preciso te falar uma coisa. – eu disse a ele.
- Sim, vamos à praia hoje à tarde. Andamos pelo calçadão, tomamos água de coco e você me diz.
- Tá.
Então conversávamos sobre tudo, menos sobre o que eu queria realmente dizer. Minhas mãos suavam, minha barriga gelava e o coração batia mais forte. Era inadmissível pra mim. Sentia-me uma tonta, boba, brega. Quando nos apaixonamos ficamos assim, sem ação, sem noção. As cores têm mais vivacidade, o céu sempre é mais azul e um simples gesto pode ser o clímax de uma noite perfeita. Então movemos céus, terras, montanhas, e mares se recuam: você passa.
- O que você queria me dizer?
- Ah, sei lá. Esqueci.
- Então vamos molhar os pés na água?!
Pela janela vi um carro parado na porta. Cinza. Não era novo, nem velho. Ele entrou e o carro saiu. Já se passavam das 23 quando ele bateu de leve na minha porta.
- Oi, ta acordada? - Com os olhos pequenos e quase sem enxergar um palmo a minha frente, eu disse:
- To. To vendo tv. O que é?
- Preciso te contar uma coisa.
- Diz...
- Tô apaixonado!
Nunca mais fizemos as mesmas coisas. Nossos encontros voltaram a ser raros. Voltei aos meus livros e também a rotina de antes. No fim do ano ele voltou para a cidade dele. Eu não estava em casa quando ele partiu. Não nos despedimos. Nunca mais o vi.
Assim aconteceu no ano passado... Talvez eu devesse ter me entregado a esse sentimento exacerbado, a essa patologia do amor que chamamos de paixão. Mas em função deste fascínio, permiti-me apenas que um pedaço meu fosse embora. É que nas coisas do coração não há espaço para a imposição, para loucuras sem abertura da parte que chamamos “interesse”. Por consequência, o “interessado” que tem juízo não se expõe. Fica na espreita esperando uma chance que na verdade nunca vai chegar, visto que o coração do “interesse” já pertence a outra.
Entretanto, reencontro-o nas inúmeras vezes que lembro de nossas conversas, que procuro um lugar desconhecido pela cidade, que vou à praia no fim de tarde e molho meus pés na água do mar, quando leio poesia...
Terça-feira, Janeiro 02, 2007
Cidade do Cemitério

Acordei com o sol batendo no meu rosto. Era a liberdade que vinha de encontro a mim. Isto era a coisa mais importante que poderia haver naquele momento. Era como se eu tivesse quebrado as correntes que me estavam segurando. Olhei atentamente em volta do quarto e tomei consciência de tudo que tinha me ocorrido durante a madrugada. Senhores, não pensem que estou enlouquecendo porque não estou. Decerto estive naquele lugar, e só de pensar meu corpo arrepia e sinto a insegurança em minha volta.
Eu dirigia não sei para onde. De fato, eu estava completamente perdido. Nunca fui muito bom com essa coisa de direção. Parei o carro no acostamento. Já estava escurecendo e eu precisava achar logo um lugar onde eu pudesse passar a noite. Olhei para os lados e vi infinitamente terra de um lado e de outro. Eu parecia estar no fim do mundo. Num gesto rápido inclinei-me em direção ao porta luvas e peguei o mapa que sempre esteve a postos. Retirei-o do canudo e coloquei-o com cuidado sobre o banco do carona. Acendi a luz e foquei num ponto bem no meio. Meus óculos ficaram completamente embaçados e mesmo que me esforçasse não poderia enxergar nada. Tirei-os. Puxei o lenço do bolso e prontamente fiz a limpeza com bastante cuidado. Levei-os de volta ao rosto, e quando novamente foquei o ponto central no mapa fui surpreendido por uma ventania que vinha de não sei onde, e que agora começava a me sugar. Senhores, eu não sabia o que pensar sobre o que me acontecia naquele momento, pois era muito estranho aquele vento repentino. Então, uma fresta de luz abriu-se no meio do mapa e crescia imensamente a cada milésimo de segundo. O vento me empurrava para dentro do buraco iluminado. Segurei no volante e também no banco do carona, mas o vento era muito mais forte do que eu. Minha luta era inútil. Meus óculos foram levados, entretanto, eu podia ver muitas coisas ao meu redor: cidades passavam por mim flutuando e quase me esbarravam, animais que com medo corriam de um lado para o outro, seres estranhos, que não me aventuro a descrever, iam e vinham num ritmo igual. Tive muito medo e nenhuma força para me apoiar em qualquer coisa que pudesse parar aquilo. E mesmo sem entender muito bem o que acontecia, percebi que eu vivia a posteriori do que para mim era sobrenatural. Era realmente amedrontador, mas também fascinante. Sendo assim, minha inferência se confirmava a cada momento, e tive certeza plena de que nenhuma epistemologia seria capaz de justificar tal coisa. O canudo que guardava meu mapa, que a essas alturas tinha sido levado pelo vento, voltou com uma força inacreditável, e batendo em cheio na minha cabeça fez-me desmaiar.
***
Despertei assustado, tonto. Um homem alto me segurava o ombro direito. Ele era pálido ao extremo. Seus olhos tinham a mesma cor do terno preto que vestia. Ele parecia querer falar algo, mas sua languidez não o permitia. Nenhuma voz saía da boca do homem, e num balbucio sem resultado tive esperanças de entender o que ele tanto queria me dizer. Quando recobrei totalmente minha consciência levantei-me de uma só vez. Olhei ao redor e vi muitas casas. Muito embora todas elas fossem brancas, não havia paz em nenhuma delas. Eram velhas, mas não pareciam mal cuidadas. Fiquei por muito tempo olhando para elas. Notei que algumas pessoas permaneciam em pé nas varandas, mas quando fitei o rosto delas percebi que não havia nenhuma expressão: nem de dor, nem de desgosto, nem de descontentamento, e muito menos de felicidade. De onde eu estava avistei um grande tanque de água que cortava o centro do lugar. Aproximei-me porque vi muita gente. Lembrei-me do homem que havia deixado logo atrás, mas ao procurá-lo constatei que ele já não estava lá. Segui em frente. Cheguei mais perto do grande tanque e percebi que ele contornava as quadras no lugar das ruas. Senhores, onde já se viu água no lugar de ruas? Era realmente um lugar muito estranho. O que haveria de ser aquele lugar e por qual razão eu estava ali? Minha busca incessante por respostas fez-me permanecer atento. Não podia acreditar no que estava vendo. Enorme foi o susto quando já bem perto do tanque consegui ver o que havia dentro. Flores estavam espalhadas para todos os lados. Um pequeno barco encabeçava uma grande fila de outros barcos. O homem que havia me recebido àquele lugar conduzia o primeiro da fila. Era um cortejo fúnebre. E como as pessoas nas varandas das casas, as do cortejo também não expressavam nenhum sentimento. Entre elas havia entes queridos e outros não tão queridos; estes ficavam por último. Ninguém chorava pelos mortos, apenas seguiam pelas águas. O morto também estava num barco, só que cheio de flores de todas as cores. Olhei para ele e vi que grande era a semelhança entre nós, embora ele parecesse ser bem mais avançado em idade do que eu. Curiosamente eu parecia estar invisível, pois não fui notado em nenhum momento por ninguém, nem mesmo pelo homem que me recebera. E assim era: atrás do primeiro cortejo vinha outro, e depois outro, e assim ia sem que nunca se acabasse. Fiquei ali às margens do tanque reparando neles que sem pressa deslizavam pelas águas num ritmo que me irritava profundamente, mas que me prendia a atenção. O sol que sobre mim batia foi-se. A noite caiu e luzes em volta iluminavam tudo, e passei a reparar nas sombras das árvores que ficavam ao redor do tanque. Pareciam ser simples sombras, bidimensionais e invertidas, no entanto, nelas se revelou meu mais sombrio ego. E eu que sempre me julguei melhor em tantas coisas, senti vergonha de mim mesmo. Todos os meus desejos imorais e violentos vieram à tona e ficaram expostos. Eu desejei a morte. Completamente exausto caí dentro da água. Eu não tinha controle sobre meu corpo, não podia evitar a queda. Meu desejo parecia estar sendo atendido, minha morte era iminente. De repente, uma luz cegou meus olhos e para o fundo fui puxado com tamanha violência que não saberia descrever-lhes. E foi assim que acordei hoje: com a nítida sensação de liberdade e alívio.
Senhores, eu não faço questão que acreditem no que acabei de lhes contar. De fato, a única coisa que agora quero é ter que não voltar àquela terra de ninguém, e também saber quando nos encontraremos novamente para beber as garrafas de uísque que sobraram da farra de ontem.
Cleto.
Domingo, Dezembro 24, 2006
Qual é o sentido da vida?

Quando eu era criança eu gostava de andar de bicicleta. Não podia ir muito longe, minha mãe impunha que fosse só na nossa rua. Bobagem. De vez em quando eu a despistava e dava a volta no quarteirão inteiro. Que aventura! O carro quase me pegou um dia. Senti medo e lembrei-me de mamãe. Voltei pra minha rua e não quis mais andar de bicicleta naquele dia. O coração apertou e a consciência pesou em conseqüência da desobediência à ordem dela. Entrei e fui assistir ao sítio do pica-pau amarelo. Mamãe varria a frente da casa ainda do lado de dentro do quintal, e eu não sabia se ficava sentada no sofá ou de pé de onde eu pudesse ver mamãe, tudo por causa do medo que eu tinha da Cuca.
Mamãe sempre foi uma mulher triste. Papai indiferente. Nunca pude entender isso muito bem. Na verdade, talvez eu não quisesse entender isso muito bem. O fato de uma boa garrafa de Scotch ter sido mais importante para papai do que qualquer outra coisa na vida, hoje me obriga a ser mais realista do que na minha adolescência, de forma que, meu gasto com psiquiatras e tarjas pretas nos últimos anos aumentou bastante. Mas isto já não se constitui um problema para mim. É que cresci, estudei, e fiz minha vida. E hoje, ah hoje! Hoje eu estou aqui sentada de frente a todos esses quadros, analisando cada um deles cada vez que me sento aqui. E são tantos! Tenho feito isto por anos. Incansavelmente! Cada vez que olho para eles descubro um significado diferente, diria até mesmo singular. E me pergunto: Qual é o sentido da vida?
Mandei meus filhos para uma boa escola na Europa. Ingratos! Eles são a prova de que me casei por muitas vezes! Infelicidade da qual perdi as contas. Pago algumas pensões. Acho digno! É a recompensa por cada gosto meu que fizeram. Não foi caro, o gasto com meus filhos sempre foi maior. Por isso comprei todos os meus maridos numa liquidação. E acho que também foi a razão pela qual não duraram tanto. Traí a todos. Acredito que tenham feito o mesmo comigo. Mas isso agora não é importante. Nem tenho mais bicicleta; tudo ficou para trás. Enterrei tudo no meu jardim de inverno. Está tudo lá entre uma planta e outra: meus maridos, meus filhos, meu pai, e até minha antiga bicicleta. Junto com ela foi também minha felicidade.
Quarta-feira, Novembro 29, 2006
O Forte
João era bom filho. Desde cedo ajudava a mãe. Vendia balas nas curvas do sinal do Forte pela manhã e de tarde ia para a Escola. Era o “João do Forte” driblando os carros e a vida dura, sempre em alta velocidade. Era perigoso! Mas destemido gritava:
- “Olha a balaaaaa! Duas é 0.10, dez custa 0.50 e vinte 1 reaaal.”
E assim levava a vida. Dias de chuva, dias de sol que esquentavam toda a Capital, e lá estava ele batalhando o seu.
Gostava de escrever durante as aulas de português de Dona Regina. Lia em casa; treinava em voz alta para não fazer feio durante a aula de leitura. Caprichoso. Mas o que também o motivava era o medo da chacota dos outros meninos. Em seu primeiro ano no Maria Ortiz foi muito perseguido pelos tais moleques. Como bom novato morria de vergonha de tudo, e expressou todo o seu nervosismo contido quando fora ler em voz alta a pedido de Dona Regina numa de suas empolgantes aulas de leitura. Claro, os meninos “caíram de pau”!
E o tempo foi passando. O tempo passou para as curvas do Forte como tinha mesmo que ser. Graças ao hábito adquirido nas aulas de Dona Regina, não foi difícil para ele ler todo o conteúdo do programa do vestibular. E lá estava ele no dia marcado: caneta nas mãos, todos os fatos na cabeça, inclusive o de que sua vida mudaria se passasse no teste. Era para jornalismo. Além de ler tudo também queria escrever. Dona Regina fora mesmo, com exceção de sua mãe, a mulher de sua vida! E a vida continuava a ser corrida: primeiros semestres, aulas de manhã e de tarde, e depois veio o estágio o que abriria as portas para o primeiro emprego formal de sua vida. E esse dia chegou! Enfim, havia chegado.
Não morava mais no Beco da Laura. Há pouco havia se mudado. Não era bairro nobre, mas era bem melhor que o morro. O banheiro tinha azulejo, todos os cômodos da casa eram revestidos com piso frio. Para o barraco onde morou durante quase toda sua vida, decerto, aquilo era a chegada do luxo, do que era bom. Não escutava mais barulho de tiros e nem brigas pela vizinhança e muito menos o barulho dos carros que em alta velocidade passavam pelo Forte. Às vezes antes de dormir, ficava quieto na cama, pensando sobre como era a vida quando era criança: a escola, Dona Regina, os “muleque fila da mãe”, o sinal do forte, a luta pela sobrevivência. Quanta dificuldade. Estava tudo lá guardado dentro dele! As lembranças do morro, além de estarem dentro dele agora também estavam na tela do computador quando escrevia suas matérias sobre os problemas alheios. E escrevia muito bem. Isso garantiu sua vaga no melhor jornal da cidade.
Acordou cedo. Dona Maria estranhou. Ele costumava acordar tarde por causa das noites que perdia no computador escrevendo, esboçando idéias, argumentando em cima dos fatos. Ele disse que precisava ir às curvas do Forte, pois na semana seguinte publicaria um artigo sobre os meninos que ganhavam a vida lá. Caneta, bloco, máquina fotográfica para registro, e foi ele. Quando chegou estacionou o carro perto do posto policial. Eles poderiam ceder informações preciosas sobre o dia-a-dia na área. De cara encontrou o Sargento Martins que ali trabalhava desde que João era criança. O coração bateu mais forte. Apesar de homem feito, não podia segurar toda emoção que sentia naquele momento. Deu um abraço caloroso no homem. E começaram a vir as velhas lembranças. Depois de fazer várias perguntas, parou perto da mureta que separava a calçada do mar e ficou olhando para a baía de Vitória. Que cidade linda! O porto logo ali. Navios grandes vindos de todas as partes do mundo movimentando a economia do Estado. Tudo ali, bem perto. Virou-se e avistou os meninos vendendo coisas no sinal. Não conseguia pensar na matéria mais do que em suas lembranças, as mesmas que estavam tão vivas dentro dele e que o faziam refletir antes de dormir quase todas as noites. Ainda emocionado, do lado direito da pista, enfocou o menino menor à margem esquerda logo acima. Parou. Precisou de um minuto apenas para constatar as semelhanças entre ele e o pequeno. Ficou surpreso. Na verdade ele jamais havia imaginado que voltar ao Forte o deixaria daquele jeito, completamente fragilizado. Letárgico avançou em passos com os olhos no menino. Precisava falar com ele. O policial Martins gritou na tentativa de chamar a atenção dele. Mas era tarde demais tão cedo pela manhã.
“Morreu aos 25 anos, às 07:40 AM desta sexta-feira (27), na Capital do ES, João Ferreira do Nascimento, jornalista. Foi atropelado nas curvas do Forte São João no exercício da profissão. Era conhecido como “João do Forte” por ter passado boa parte de sua infância e adolescência trabalhando nas curvas do Forte São João onde há registros de altos índices de atropelamentos. O velório será realizado amanhã no Cemitério Jardim da Paz, em Serra, às 10 da manhã onde a mãe do jornalista, Maria Ferreira do Nascimento, receberá os cumprimentos.”.
http://pt.wikipedia.org/wiki/EspÃrito_Santo_(estado)
http://www.vitoria.es.gov.br/tourvirtual/index.html
Sábado, Novembro 18, 2006
O mesmo filme

O dia estava frio, mas mesmo assim decidiu sair. Já por muito tempo havia permanecido trancafiado dentro de casa. Talvez pelo tempo. O frio traz um ar de tristeza nas coisas que fazemos daí a necessidade de se recolher. A casa fica mais escura, as músicas são mais lentas e qualquer paisagem além da janela é mais poética. Cinco minutos andando e decidiu que ia passar na locadora. Filme combina com dia frio. Na verdade, para ele, filme combinava com qualquer dia. Andou mais dez minutos, entrou, olhou ao redor, cumprimentou a moça do balcão. Ela acenou com a cabeça cordialmente. Começou a sua procura na fileira do canto. O lugar era imenso, muitos corredores com todos os tipos de filmes imagináveis ou não: comédia, drama, suspense, terror... para todos os gostos. Andou até o fim do corredor. Preferia dramas, combinava com a vida. Avistou um filme que assistira há muito tempo atrás. Abaixou-se perto da prateleira. Uma sombra fez-se sobre ele.
- Você escolhe seus filmes muito bem!
Olhou para cima assustado e constatou que era ela. Depois de tanto tempo era ela.
- Parece que já vi esse filme!
Ela sempre gostou de brincar com o obvio. Era inteligente, sagaz. Isso sempre o atraiu nela. Ele pensou mil coisas enquanto ela estava ali, parada na frente dele, vindo de não sei onde depois de tanto tempo. De repente perguntou:
- Você alguma vez me entendeu?
Ela se calou por um tempo e depois disse:
- Às vezes penso que sim, outras vezes penso que não.
Sem entender muito, ele disse:
- Por que às vezes pensa que não? - Continuou... - Quero saber as razões, preciso saber. - Disse ele afoito.
- Por que precisa saber disso agora? - Perguntou ela num tom irritado.
- Porque me aliviaria.
Ela ficou mais uma vez em silêncio. Para ele aquele silêncio era o que poderia haver de pior. Ele nunca suportou esses momentos entre eles. Mas logo ele que quase nunca falava?! Que ironia!
- Apesar de tudo, não te odeio. Isto é só o que você precisa saber.
A resposta àquela pergunta parecia ser vital para ele. Depois de três longos anos sem vê-la e encontrá-la ali, justamente ali onde se viram pela primeira vez! Aquilo estava entalado em sua garganta, e entre tantas emoções proporcionadas por aquele súbito encontro, se sentia atordoado, sem chão. Ela o olhava admirada, pois durante todo tempo em que permaneceram juntos ele nunca fora tão direto, tão objetivo. Isso mexeu com ela, mas ao mesmo tempo não sentia vontade de lhe dar satisfação sobre nada.
- Por algumas vezes cheguei a entender você. - Disse ele.
Ele sempre foi um cara muito introspectivo. Falava pouco, mas tinha amigos. Costumava sair com eles e a deixava sozinha. Por muito tempo ela ficou sozinha. Além disso, era desorganizado. Ela odiava isso nele. Shorts no sofá, camiseta no banheiro, toalha molhada em cima da cama, os sapatos na sala de TV e ela a beira de um ataque de nervos. Um dia ela se cansou. Cansou de não conversar sobre as coisas, sobre o mundo. Cansou de não saber a opinião dele sobre qualquer assunto. Cansou de nunca ouvir "eu te amo". Cansou de ficar só enquanto ele saía com seus amigos. Cansou. Arrumou a mala e se foi sem deixar nenhum vestígio, nada. Portanto, ela não poderia acreditar no que ele estava dizendo. Era impossível sequer imaginar que ele algum dia tivesse pensado em entender alguma coisa nela. Ela o via como um cara egoísta. Talvez a única vez que ele tenha pedido sua opinião fora há quatro anos atrás, quando naquela mesma locadora estavam em busca de um filme para curtirem a primeira noite dividindo a mesma cama. Ele dormiu no meio do filme. Que fiasco!
Ele prosseguiu numa nova tentativa.
- Vai ficar aí parada? Não vai me dizer nada?
Ela olhou pra ele e constatou que mesmo depois de todo esse tempo sem tê-lo por perto não sentia saudade, não sentia mais nenhuma ternura por ele. O amor realmente havia acabado.
- Se fico parada, é pra não ter que falar muito.
Do mesmo jeito que chegou, sem anúncio, ela saiu. Não levou nenhum filme. Ele olhou pela vidraça e ainda avistou-a ligando o carro e saindo rapidamente. E ela se foi. Mais uma vez. Uma lágrima deslizou pelo rosto dele. Ele nunca havia chorado por mulher alguma em toda sua vida. Enxugou-a. Dirigiu-se ao balcão com o filme que estava na mão. Na volta pra casa fez o mesmo trajeto. Chegou, colocou o filme e desabou de vez. De tanto chorar e pensar em tudo aquilo cansou. Acabou dormindo no meio do filme.
Segunda-feira, Novembro 06, 2006
2,80

Para ele já era tarde, 4:30 da manhã. O primeiro ônibus saía às 5:00. Olhou ao redor e os quatro filhos estavam agarrados no sono. Pobre deles. Mal sabiam que naquele dia não haveria almoço. O último punhado de arroz fora feito por Maria no dia anterior. Feijão durou pouco, os meninos gostavam mais. Saltou no "Centrão". Disseram-lhe que na 13 de Maio iria começar algumas obras. Levou a carteira de trabalho. Conseguiu sorrir esperançoso. "Não!". Uma vez, duas vezes, três vezes e chegou ao ponto de perder as contas. Voltou descendo a rua e já por um fio pensou no almoço das crianças. Os dois mais velhos teriam a chance de comer na escola, mas o que haveria de ser dos menores? Sentiu vontade de chorar, mas segurou. A moça passou entregando panfleto: "Real Garden - Sua família merece ser feliz!". Embaixo da foto do prédio de luxo dizia que estava em fase de construção. Foi a pé para economizar o dinheiro da passagem. Dos últimos cinco reais ainda lhe sobrara dois e oitenta. O caminho era longo, acenou com a cabeça para os garis que penalizados ofereceram-lhe água da embalagem pet. Foi como achar um oásis no deserto. Continuou. Reparou na pressa dos que cruzaram com ele e lançavam-lhe olhares tortos. Foi assim enquanto andou pelo bairro nobre. Que poeira! Grandes construções são assim mesmo: barulho, máquinas pra lá e pra cá, homens de capacete, essas coisas. "Não!". Voltou exausto, desolado, cabisbaixo. Ele não era uma raça de ninguém. A volta foi sem pressa. De longe ouviu o barulho, mas não era de construção. Andou mais. Já sem nenhuma esperança esboçada em seu rosto, entrou. "Deus está conosco. Aleluia!". Deixou-se cair sobre o simples banco de madeira. Ninguém o olhou torto. "Quero ver se há homens de coragem nesse lugar! Quem tem coragem de dar 50 reais pra Jesus?". Era o leilão da fé. "Quem aqui tem coragem de dar 40 reais pra Jesus?" Ele não poderia se manifestar. Não tinha para dar aos filhos e nem pra Deus. "Deus vai devolver em dobro, irmão! Seja um homem de coragem!" E assim prosseguia o leilão. O pastor bateu o martelo em dois reais e oitenta centavos.
Quinta-feira, Outubro 05, 2006
O cemitério das árvores

Quinta-feira, Setembro 07, 2006
Ditados Populares
Por mais que nos pareça algo banal, é interando com esse tipo de conhecimento que ampliamos e enriquecemos o nosso próprio e assim nos tornamos co-participantes do mérito de manter esse tipo de cultura viva. Quem nunca caiu no CONTO DO VIGÁRIO? Quem nunca ficou A VER NAVIOS numa noite de Sábado? Mas acho que o pior mesmo é NÃO ENTENDER PATAVINAS ou ter que SE QUEIXAR AO BISPO! Já chegou em casa atrasado para o jantar e sua mãe brava te perguntou: você tá achando que aqui é a CASA DA MÃE JOANA? Não se preocupe! Isso aconteceu comigo também! Entretanto, aquele VOTO DE MINERVA do seu pai lhe garantiu o jantar, muito embora a SANTINHA DO PAU OCO da sua irmã tenha ficado contra você. Eu sei! Tenho certeza que no atraso seguinte você não chegou de MÃOS ABANANDO, mas cuidou de trazer aquele presente que sua mãe tanto queria. Esperto! Tudo bem que o presente poderia ter sido melhorzinho, mas você sempre SEM EIRA NEM BEIRA, não é mesmo?! Fazer o quê?! Ninguém é perfeito. Cada um tem o seu CALCANHAR DE AQUILES!
Quinta-feira, Agosto 31, 2006
interminable

She was involved in an accident
I don´t know how!
I don´t know why!
Poor Girl
My friend...She was, She is, She will be
We were teenagers together and forever.
We argued some few times
Bullshit!
Bonds of True Friendship are never breached
Clever, sweet, not brief She is, oh! She is!
Yesterday She left me as Ephigenia in Hampstead
Thinking of how life can be
This time I let my mind plays tricks on me
Just as in one of our favourite songs
And my happiness came back
By understanding She is alive
With me She is, always...
Domingo, Agosto 27, 2006
InsôniA

Insônia
Silêncio na noite
Só o barulho dos pássaros que por um acaso passam
O barulho da geladeira
Os problemas do dia e da semana inteira
As músicas mais tristes e o som do vento
Luzes apagadas são escadas
Que me levam a todos os andares
Que nem de longe são salutares
Mas, o que fazer? Esquecer?!
Digo a eles a verdade?
Maldade!
Devo me vender para ter o que comer?
Pra ver
Que B612 não existe
Que triste!
Vamos, agora me esperam
Que tédio!
Todos os rostos na mesa
Proeza!
Avareza de sentimentos
Consequentemente tudo pelos proventos.
Quinta-feira, Agosto 24, 2006
Hã?!
To chata
To mala...
Ow, que que é?
Fala logo
To cansada
Sábado tem macarronada
E é com Calabresa
Ou então Portuguesa
Que mal fará se é uma delícia
To parecendo a Felícia!
"E qual é o pó? Qual é o póbrema?"
Saco!
Vou quebrar sua cara
Fica me azucrinando pra ver!
Óóóóóólha! To avisando...
Depois não reclama.
Quinta-feira, Agosto 03, 2006
03 de Agosto de 2006.

Queria que a vida fosse feita de doces
Pra que doce se tornasse a cada momento amargo
Açucar,caramelo, chocolate junto a um tanto de amor...
Nunca mais diria sim à dor
Se assim fosse, feliz eu seria
Não mais reclamaria
Daí a vida seria sem desgostos
Pelo menos até o fim desse Agosto
Quem sabe assim talvez você me entendesse
Nem que pra isso eu morresse
Tosco
Moço inexperiente
Carente
Condescendente
Porém, intransigente
O que faço com você?
Não basta só eu querer
Você precisa saber os porquês
Expor sua tez
Entender a embriaguez
Drásticas seriam suas atitudes
Desnudes
E quando o Ogre chegasse
E você não o suportasse
Então me entenderia
E comigo sofreria
E nunca mais me colocaria
Contra essa parede fria
Onde os desesperados padecem
E enlouquecem a cada dia.
Domingo, Julho 16, 2006
bY mYSELF
Terça-feira, Julho 04, 2006
Duas pessoas

Segunda-feira, Julho 03, 2006
Ah! Se eu quisesse!
Se eu quisesse hoje ficaria triste.Se eu quisesse poderia largar tudo e me esconder do mundo dentro do buraco mais profundo.
Se eu quisesse poderia virar um moribundo, sem rumo.
Se eu quisesse poderia postar recados para aqueles que profundamente me incomodam.
Se eu quisesse eu faria você querer o que eu quisesse também.
Se eu quisesse nesse momento seria dona desse lugar e dessas pessoas e palavras sairiam da minha boca e sairiam também ao vento, falando pra quem quisesse ouvir e para quem não quisesse também.
Se eu quisesse não querer, não quereria e não te diria nem mesmo o porquê.
Ah! Se eu quisesse!
Mas hoje só quero mesmo é ser feliz!
Sexta-feira, Junho 30, 2006
Perdas

Não tenho mais a mesma vitalidade da semana passada. Meu corpo está diferente e daqueles que eu amo também. Tenho tentando enxergar as esperanças, mais nem sei se elas existem. Esses enfadonhos dias de lágrimas não passam, e é com essas mesmas lágrimas que procuro retificar o passado para ratificar a vida. Contudo, minha ansiedade ofusca meu futuro me deixando na penumbra. Já gostei da penumbra, mais agora é diferente. Não há mais amores, só dores, não há mais melodias, só um som desafinado estourando meus tímpanos. Ditas me pergunta se vou comemorar, mais não há o que comemorar. A mancha negra no meio do papel desvia a atenção da imensa margem branca, e fatalmente assim será com todos. Intermináveis ais, pesadelos terríveis, gritos na noite, perdas irreparáveis...
Quarta-feira, Junho 28, 2006
Sobre nós

Quem são eles?

É impressionante como a falta de criatividade é requisito básico para estar na moda, pra ser "o cara". Eu concordo que é difícil falar sobre si mesmo. Acho que é assim com todo mundo, com os chatos, com os legais, com os pretenciosos e mesmo com os que se julgam modestos. Mais acho "phodda" com "ph" e "2Ds" de toddy logar no orkut e observar que tanta gente faz questão de postar o que alguém famoso escreveu numa seção onde elas deveriam em poucas palavras falar sobre elas mesmas. Não tenho nada contra as pessoas gostarem de artigos, trechos de livros e músicas bem escritas por outras pessoas. Entretanto, ficaria muito mais feliz se elas expressassem seu eu com mais sinceridade e simplicidade. Nada contra textos complexos também. Por favor, não me entendam mal! É que acho que o povo é meio equivocado. Noutro dia observei um papo numa roda de amigos onde falavam sobre como um tal fulano era o máximo porque conhecia e citava muitos filósofos famosos no orkut dele! Gosto musical extremamente apurado, sim, Legião Urbana no som e na camiseta preta. Realmente se tratava de "o cara". Imediatamente me lembrei de uma cena inesquecível que observei de dentro do ônibus! Tava escrito no muro: "Aí, comeram o cara!".
Segunda-feira, Junho 26, 2006
Minha Avó
Whatever...

Sem compromisso
Sem dar satisfação
Sem esconder o que há no coração
Sem fazer pontuação
Tentar tantas quantas vezes puder e quiser
Falar bobagens com Koragem
Escrever versos sem ser modesto
Sem se importar com o que vão dizer
Isto é ser feliz
Ver o mundo por cima do nariz
Amar a família, os amigos...
Acreditar no que quiser
Gostar do céu azul
Contar estrelas a olho nu
Whatever...



